24 dezembro 2024

Essa infernal obsessão com a aparência!





A Substância (The Substance) foi o filme mais bizarro — e divertido! — que eu assisti em 2024. Estrelado por Demi Moore como Elisabeth Sparkle, uma atriz decadente, ela vê os dias de glória cada vez mais distantes à medida que chega a uma certa idade e é demitida do programa que apresentava na televisão. Deprimida, ela sofre um acidente de carro e, no hospital, um enfermeiro lhe oferece uma saída: um tratamento no qual ela poderá criar a "melhor versão de si mesma", mais jovem e mais bonita. O problema - ou a "pegadinha" por trás do "milagre" prometido! - é que as aplicações da droga "milagrosa" têm o tempo de vida útil de apenas sete dias. Expirado esse prazo, para manter o frescor da juventude, ela precisará do seu antigo corpo, de onde extrairá  "a substância" necessária para replicar suas células e repetir o processo. Todavia, tal procedimento cobra um alto preço, o qual conduz a um desfecho horrendo. Mistura de terror e de ficção científica, a obra dirigida por Coralie Fargeat acerta em cheio o tom da crítica a uma sociedade altamente superficial, cujos ideais de beleza, praticamente impossíveis de serem alcançados, são impostos e assimilados por pessoas dispostas a irem a extremos para conquistá-los. 






O alter ego de Elisabeth é Sue (Margaret Qualley), tornada a sensação do momento por Harvey (Dennis Quaid), o asqueroso ex-chefe de Elisabeth, o qual "precisava dela jovem e gostosa". Quaid, aliás, entregou uma performance sensacional como um "típico Harvey Weinstein" — não à toa, o prenome do personagem é "Harvey" —, ou seja, alguém naturalmente abusivo, porque sabe que o poder de ditar as regras está em suas mãos. Para ele, Elisabeth não serve mais como produto vendável (e descartável!), porque chegou aos 50 anos. Quanto à dinâmica entre Elisabeth e seu outro eu, pode ser estabelecido um paralelo com o clássico da literatura O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, onde Elisabeth sente-se cada vez mais contrariada — e ressentida! — com as atitudes de Sue, mas simplesmente não consegue deixá-la para trás, como um vício. No âmago, A Substância fala sobre a importância da verdadeira autoestima, de não se deixar rotular por padrões pré-estabelecidos. 






A Substância
Título Original: The Substance
Ano de produção: 2024
Direção: Coralie Fargeat
Elenco: Demi Moore (Elisabeth Sparkle), Margaret Qualley (Sue), Dennis Quaid (Harvey), Robin Greer (enfermeiro), Hugo Diego Garcia (Diego), Oscar Lesage (Troy), Tom Morton (médico), Akil Wingate (apresentador de TV).


Body Horror



A Substância foi classificado como "body horror", um subgênero do terror definido pelo crítico Phillip Brophy em 1983, no qual o corpo humano torna-se fonte de pavor por meio de representações gráficas de mutilações, deformações, doenças e movimentos não naturais. Em suma, o grotesco, cujas mutações físicas causam impacto e trazem consigo uma carga psicológica profunda. Um exemplo apropriadamente ilustrativo de body horror está no livro Frankenstein; ou o Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley. Nas telas de cinema, o subgênero se popularizou em obras como Re-Animator (1985), A Mosca (1986), Hellraiser: Renascido do Inferno (1987), Society (1989), Possessor (2020), Titane (2021), entre outros. 


Demi Moore e o (maldito) etarismo!



No caso de Hollywood, a "realidade é mais estranha que a ficção" ao se traçar um paralelo entre a própria Demi Moore e Elisabeth Sparkle. Aos 61 anos, ela própria foi vítima algumas vezes do etarismo cruel que permeia a indústria. Outrora uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood, protagonista de blockbusters como Ghost (1990), Proposta Indecente (1993) e Assédio Sexual (1994)foi duramente criticada por mostrar o corpo em cenas de nudez em Striptease (1996). Em 2003, no então novo filme das Panteras, intitulado As Panteras Detonando (Charlie´s Angels: Full Trottle), foi novamente massacrada porque apareceu de biquíni como a vilã da trama, Madison Lee. Detalhe: ela tinha 40 anos na época, mas, mesmo linda e no auge da beleza, não foi poupada de críticas. Nos anos subsequentes, ela seguiu com a carreira, mas nunca mais esteve em evidência em um "leading role". Ela faz parte de um grupo que inclui nomes como Carrie-Anne Moss, Sharon Stone, Kim Basinger, entre tantas outras, vítimas de uma indústria implacável com quem envelhece, sobretudo as mulheres, para as quais há uma escassez de bons trabalhos à medida que o calendário avança. Em A Substância, Demi Moore comprova que é — e sempre foi! —, uma atriz de primeira grandeza.


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