Abaixo o mau-humor — Parte I: Jô Soares
Que saudades dos anos 1980, quando Jô Soares [1938-2022] e Chico Anysio [1931-2012] encabeçavam seus programas de humor, repletos de tiradas inteligentes e personagens divertidos. Muito diferentes da atual leva de humoristas — que só consegue fazer graça às custas de ofensas e de polêmicas! —, Jô e Chico levavam ao ar um humor sagaz, onde a situação sócio-política do país rendia piadas ácidas e inteligentes, dignas do humor afiado dos mestres que eles eram. Jô Soares participou de vários programas humorísticos, como Família Trapo (1976-1971), que foi uma criação sua, Faça Humor, Não Faça Guerra (1970), Satiricom (1973) e Planeta dos Homens (1976-1982), mas foi em 1981 que estrelou o saudoso Viva o Gordo, seu primeiro programa solo. Com direção de Walter Lacet e Francisco Milani, trazia, na divertidíssima abertura, o comediante ao lado de figuras conhecidas da política nacional e internacional, como Ronald Reagan, Orestes Quércia, Boris Ieltsin, entre outros, por meio da técnica de inserção de imagens. No que tange ao programa, Jô contracenou com nomes como Walter D´Ávila, Paulo Silvino, Flávio Migliaccio, Rogério Cardoso, Eliezer Mota, entre outros, e interpretou personagens memoráveis, como Dalva Mascarenhas, a "Mulheríssima", que satirizava o feminismo e o discurso de emancipação da época; o Capelão, que estava sempre em um avião ao lado de algum passageiro assustado, a quem aterrorizava com seus comentários sobre as possibilidades de um desastre aéreo; o General linha dura, que ficou em coma na época da Ditadura Militar e despertou em pleno período de redemocratização, com um civil na presidência (José Sarney).
Os personagens diziam bordões engraçados, como "Me tira o tubo!" — proferido pelo General ao saber das mudanças ocorridas no Brasil após despertar do coma —, ou "Eu sou mulheríssima!" (referente à Dalva Mascarenhas, a "Presidente da Liga de Defesa da Mulher", em um quadro que, nos dias chatos que correm, com certeza seria considerado politicamente incorreto e ofenderia a "sensibilidade" de certos grupos). Além do humor, havia mulheres lindíssimas, tanto nos quadros apresentados quanto no encerramento do programa, quando Jô contracenava com Zezinho (interpretado por ele mesmo), o qual sempre criticava o programa e clamava por um striptease, ao que Jô provocava sem jamais desnudar a bela modelo para o inconveniente telespectador (para desespero dele e da plateia masculina que estava em casa!). Nesse quadro final, exibiram a sua beleza nomes como Magda Cotrofe, Luiza Brunet, Isadora Ribeiro, só para citar algumas. Com o término de Viva o Gordo, o apresentador estrelou um segundo programa chamado Veja o Gordo (1988-1990), desta vez no SBT, o qual seguiu a mesma linha do anterior. Curiosamente, no mesmo ano, estreou Jô Soares Onze e Meia (1988-1999), célebre talk show no qual ele combinava humor com entrevistas, o que fez com que permanecesse nesse formato e nunca mais retornasse a um programa exclusivamente de humor. Uma pena! Abaixo, alguns vídeos do programa para matar a saudade!
Entre 1988 e 1999, Jô Soares comandou o talk show Jô Soares Onze e Meia, no SBT. Inspirado em David Letterman, Jô Soares foi pioneiro do formato no Brasil. "Não vá para a cama sem ele!" dizia a chamada, e grande parte da audiência não ia mesmo, porque era fisgada por seus comentários afiados e humor ácido. As entrevistas eram conduzidas com muita irreverência, o que quase sempre era garantia de entrevistas excelentes. Todavia, havia entrevistas com o potencial para serem ótimas, mas que foram estragadas pela necessidade do apresentador de aparecer mais que o entrevistado. Seja como for, o programa foi um sucesso incontestável, até mesmo quando Jô deixou a emissora de Sílvio Santos e voltou para a Globo em 2000, onde continuou a apresentar o mesmo formato de programa, mas com um novo nome: o "Programa do Jô". A fórmula do sucesso consistia na elegância e na inteligência de Jô, apoiado pelo carisma do seu quinteto de músicos. Quem não lembra das gargalhadas contagiantes do Bira, ou as frias em que Jô metia seu "assessor para assuntos aleatórios", Derico? Contudo, nem tudo era um mar de rosas. Em 31 de outubro de 2014, Jô enfrentou um dos momentos mais dolorosos de sua vida: a perda de seu único filho, Rafael Soares, fruto do seu casamento com a atriz Therezinha Millet Austregésilo [1934-2021], o qual sofria de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em três de novembro do mesmo ano, ele abriu o programa de forma emocionada ao falar sobre Rafael. Em 2016, ele se aposentou da TV e faleceu no dia cinco de agosto de 2022, aos 84 anos, no Sírio-Libanês, onde estava internado desde 28 de julho para tratar de uma pneumonia. Jô Soares foi cremado e teve suas cinzas transformadas em biodiamante por Flávia Pedras, sua ex-esposa. Abaixo, algumas entrevistas impagáveis do Jô Soares Onze e Meia / Programa do Jô.
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