Mulher forte e à frente do seu tempo!
Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas muitas possuem mais força e resiliência do que muitos homens. Miriam Kate Williams [1975-1946], nascida no País de Gales, era uma dessas, uma mulher notável, cuja força física impressionante fez dela uma das atletas de força mais famosas da Era Vitoriana. Mais conhececida por seu nome artístico, Vulcana — em alusão ao deus romano do fogo e da metalurgia —, ela foi uma das mais famosas atletas de força daquele período. Ao lado do homem forte (strong man) William Hedley Roberts [1864-1946], cujo nome artístico era Atlas (o titã grego condenado por Zeus a sustentar os céus para sempre), formou a dupla The Atlas and Vulcana Group of Society Athletes e se apresentou por toda a Europa.
Atlas gostava de exagerar seus feitos e, em algumas ocasiões, passou pelo constrangimento de ser desmascarado ao usar pesos falsos. Assim mesmo, a reputação de Vulcana não foi afetada. Muito pelo contrário, ela se tornou extremamente popular, sobretudo na França, onde impressionou o Haltérophile Club de France com seus feitos de força. Inclusive, recebeu uma medalha do Professor Edmond Desbonnet [1868-1953], considerado o "pai do fisiculturismo francês", além de ter uma foto sua estampada na capa da revista La Santé par les Sports. Ao longo de sua carreira, a atleta recebeu mais de cem medalhas. Seus feitos mais bem documentados foram o levantamento de peso com a mão direita com pelo menos 56,5kg, embora algumas autoridades aceitem um levantamento de 66kg e um levantamento acima da cabeça com um peso de 25kg em cada mão.
Feitos impressionantes
A força de Kate Williams era sentida também fora dos palcos, onde foram atribuídos a ela vários feitos incríveis. Alguns comprovados, o que só faz aumentar o assombro e a admiração em torno dessa mulher extraordinária, cuja força impressionante não tirava a sua feminilidade, mas deixava claro que ela era alguém com quem não se deveria mexer! Alguns de seus feitos, todavia, não têm comprovação e adentram o terreno do folclórico, do fantástico, até mesmo do anedotário, o que não diminui o fascínio em torno dela. A seguir, alguns de seus feitos!
— Em 1888, com apenas 13 anos, ela parou um cavalo desgovernado em Bristol. Repare que, mesmo com pouca idade, ela já possuía grande força física!
— Em julho de 1901, ela salvou duas crianças de um afogamento no rio Usk, feito pelo qual, como agradecimento, recebeu um prêmio. Em outubro do mesmo ano, Vulcana libertou uma carroça presa em Maiden Lane, Covent Garden, Londres. Ela a ergueu e libertou seu condutor diante de uma multidão embasbacada por sua força.
— Em 1902, a revista Punch noticiou que Vulcana havia nocauteado um batedor de carteiras que tentara roubar sua bolsa. Em Londres, certa feita, percebeu um homem tentar roubar sua bolsa pelo reflexo de uma vitrine. Ela Torceu o braço do azarado ladrão, recuperou a bolsa e o pôs a correr. Em outra ocasião, em Birmingham, sentiu um cidadão tentar levar seu relógio. Desta vez, ela o nocauteou com um soco certeiro e ele foi preso pela polícia.
— Em 1910, Vulcana foi a primeira pessoa a alertar a polícia sobre o desaparecimento de sua amiga Cora Crippen, uma cantora de music hall americana, que se apresentava com o nome artístico de Belle Ellmore, o que levou à investigação, acusação e execução de seu marido, o Dr. Hawley Crippen.
— Em 29 de maio de 1913, no Teatro Haggar, em Llanelli, em uma disputa de levantamento de peso, Vulcana levantou um sino de desafio que sua rival Athelda (Frances Rheinlander) não conseguiu levantar, após quase meia hora de tentativas antes de finalmente desistir.
— Em quatro de junho de 1921, o Teatro Garrick, em Edimburgo, pegou fogo durante uma apresentação da Sociedade Atleta. Vulcana arriscou a própria vida para salvar os cavalos de outra atração e sofreu graves queimaduras na cabeça.
— Uma das histórias em torno de Vulcana que não tem comprovação — mas é bastante pitoresca! — é a de uma certa viagem de trem na Austrália. Um homem teria entrado em um vagão exclusivo para mulheres e começado a importunar as passageiras. Como desafio, teria dito que ninguém conseguiria tirá-lo dali. Vulcana teria segurado o inconveniente pela gola do casaco, pelas calças, e o arremessado para fora do vagão. O fiscal, ao presenciar a cena, teria pensado se tratar de uma tentativa de suicídio. Quando foram procurá-lo, ele havia desaparecido.
— Ela foi a primeira mulher a realizar a façanha conhecida como "Túmulo de Hércules" (Tomb of Hercules), uma acrobacia que consistia em apoiar as mãos e os pés no chão de modo a formar uma ponte com o corpo. Uma plataforma de madeira era colocada sobre o abdômen e, sobre a plataforma, subiam dois cavalos e seus tratadores ou outros homens. O peso suportado era enorme.
Vida familiar e morte
Kate conheceu William aos 15 anos, e pouco depois de começarem a se apresentar como uma dupla, apaixonaram-se e passaram a viver juntos. William era casado e tinha família, o que não permitia um divórcio. A fim de evitar fofocas e um possível escândalo, em seus números, apresentavam-se como irmãos. Vulcana e Atlas mudaram-se para Londres na década de 1920 e aposentaram-se das apresentações em 1932. Mesmo sem nunca terem casado, tiverem seis filhos: William, Hedley Augustus, Arthur, Nora e Mona. Kate não queria que suas crianças acabassem com parentes ou em orfanatos, e decidiu criá-los ela mesma. Todos os seus filhos se apresentaram com os atletas da Sociedade assim que tiveram idade suficiente. Tragicamente, Vulcana foi atropelada por um carro em Londres, em 1939. Ela estava consciente quando ouviu sua própria morte ser anunciada, e chegou a ser levada a um necrotério. Quando seu corpo era preparado para o funeral, o funcionário viu uma lágrima escorrer pelo seu rosto e ela foi rapidamente encaminhada ao hospital. Contudo, a demora no atendimento levou a danos cerebrais severos, que exigiram cuidados até seus últimos dias. Ela nunca mais foi a mesma! Atlas, seu companheiro de uma vida, cuidou dela até o fim, quando morreu em 1946, três meses antes dela. A filha mais nova do casal, Mona [1900-1946], também faleceu no mesmo ano. O Vulcana Women´s Circus, sediado em Brisbaine, Austrália, foi assim nomeado em homenagem à ela. Kate Williams deixou um impressionante legado, como uma mulher forte (em todos os sentidos!) e muito à frente de seu tempo.