Um Drácula velho... e racista...
À procura de um filme para assistir em uma noite chuvosa, deparei-me com Vampira (Old Dracula — 1974), estrelado por David Niven [1910-1983]. Trata-se de uma mistura de comédia e humor, que certamente incomodaria a atual turma do "politicamente correto" devido ao teor racista e ao uso de estereótipos ofensivos. Eu não faço parte da "turminha" mencionada, mas devo confessar que também me senti bastante incomodado. No início da trama, o Conde Drácula (Niven, mais canastrão do que de costume!) oferece uma festa temática em seu castelo a coelhinhas da Playboy, tudo excessivamente colorido e cafona, bem ao gosto extravagante dos anos 1970. O real objetivo do vampiro é coletar o sangue das playmates a fim de ressuscitar a sua esposa, que se encontra desacordada há 50 anos. Drácula coleta o sangue de todas elas, e apenas um é o correto, mas seu atrapalhado ajudante, Maltravers (Peter Bayliss), faz uma mistura e o sangue que desperta a Condessa Vampira é o sangue de uma mulher negra (Minah Bird). No entanto, ao acordar, um atônito Drácula percebe que a pele da Condessa (interpretada pela bela Teresa Graves) mudou de cor. Grande parte do humor do filme — mas que não tem graça alguma! — gira em torno do incômodo de Drácula com a nova cor de pele de sua companheira.
"Os vizinhos vão comentar", diz ele a seu ajudante! A partir de então, Drácula viaja a Londres atrás das modelos, para sugar o sangue de uma mulher branca, a fim de "limpar" o sangue dela e fazê-la voltar a ter a cor original, como se o sangue e a cor de pele dos negros fosse uma "falha" a ser corrigida. Como se não bastasse, a Condessa Vampira passa a usar gírias exageradas típicas do movimento Blaxpoitaition, como "jive turkey" e "right on", uma tentativa pobre — para não dizer covarde! — de apresentar um alívio cômico baseado em estereótipos raciais. Quase ao final de tanta bobagem, o próprio Drácula é mordido por sua esposa (porque até mesmo os vampiros têm problemas domésticos!), o que faz com que a sua pele também escureça. Para isso, a produção pintou David Niven com a prática de Blackface, algo considerado altamente racista. É de se perguntar o que levou Niven, um ator consagrado em trabalhos como A Volta ao Mundo em 80 Dias (1956), Vidas Separadas (1958), Os Canhões de Navarone (1961), a aceitar uma bomba como essa! Afinal, um Drácula velho, e racista, poderia até passar despercebido na década de 1970, mas não hoje, felizmente!
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