17 julho 2026

 Abaixo o mau-humor — Parte II: Chico Anysio




Chico Anysio era um gênio, um criador de tipos inesgotável, que demonstrava uma versatilidade assombrosa ao compor personalidades diferentes, com vozes e maneirismos diferentes. Quase sempre oculto por perucas, adereços e maquiagem, ele emergia como alguém diferente a cada personagem, onde nenhum era igual ao outro. Segundo ele próprio, foram 209 personagens criados ao longo de sua carreira, dos quais ele conseguiu documentar e catalogar 170 tipos, enquanto alguns se perderam nos arquivos de emissoras extintas em que trabalhou, como a TV Tupi e a TV Excelsior. Na Rede Globo, estrelou diversos programas humorísticos, como Chico Anysio Show (1960-1963)Chico City (1973-1980), as duas versões de Chico Total (em 1981 e em 1996) e Chico Anysio Show (1982-1990). 




Definir qual o seu melhor personagem é uma tarefa árdua, porque são vários excelentes, entre os quais Nazareno, que babava pela empregadinha gostosa vivida por uma jovem Monique Evans, enquanto esculhambava sua mulher feia, Sofia, vivida pela impagável Leila Miranda [1934-1992]; o bêbado Tavares e sua mulher, Biscoito, vivida pela igualmente talentosa Zezé Macedo [1916-1999]; o gay Haroldo, o qual tentava se afirmar como hétero, mas continuava a desmunhecar; Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, e caipira, que não dava uma dentro ao lado de seu assistente Calunga (interpretado por seu filho Lug de Paula); Silva, o nordestino que fazia a mulherada se apaixonar por ele sem o menor esforço; Justo Veríssimo, o político que queria mais é que pobre se explodisse, entre muitos outros. 






Outro programa adorado pelo público — e que deixou saudades! — foi a Escolinha do Professor Raimundo (1990-1995), no qual ele servia de escada para outros grandes comediantes brilharem, como Rogério Cardoso (Rolando Lero), Walter D´Ávila (Baltazar da Rocha), Zezé Macedo (Dona Bela), Brandão Filho (Sandoval Quaresma), Antônio Carlos Pires (Joselino Barbacena), Costinha (Mazarito), Orlando Drummond (Seu Perú), entre outros. Chico Anysio tinha um carinho especial pelo velho professor, cujo bordão era "E o salário, ó...", o qual o acompanhara desde o seu início no rádio, na década de 1940. Certa vez, ele revelou que considerava o Professor Raimundo um de seus melhores personagens. 








A polêmica do testamento!




Chico Anysio não era apenas um grande comediante, um artista inigualável, ele era um ser humano generoso. De acordo com seu filho Bruno Mazzeo, muito embora ele tenha sido um dos artistas mais bem pagos da TV brasileira, Chico Anysio não acumulou patrimônio devido à sua generosidade e gastos excessivos. Após a sua morte, foi encontrado um caderno, no qual o artista listava uma série de pessoas que ele ajudava financeiramente. Ainda de acordo com Mazzeo, seu pai tinha um desprendimento muito grande com o dinheiro e era enganado com facilidade, porque ingenuamente acreditava nas pessoas. Seu testamento foi anulado em 2020, por ter excluído seu filho Lug de Paula — intérpete do Seu Boneco —, algo não permitido pela lei brasileira. Com um patrimônio estimado em R$ 20 mihões, Malga Di Paula, sua mulher por 15 anos, foi nomeada inventariante do espólio do marido, o que rendeu conflito com seus enteados. Em 2017, Bruno Mazzeo entrou na justiça contra ela, por alegar sua incompetência como inventariante e afirmou ter encontrado a conta sem diheiro. Ele então assumiu a função. Segundo seu outro filho, Nizo Neto (ator, comediante e dublador, ele interpretava o Seu Ptolomeu na Escolinha do Professor Raimundo): "Já faz algum tempo que a senhora Malgarethe vem dando entrevistas bizarras, sempre se colocando como vítima em relação à herança ( que por sinal não existe) e nós nunca nos manifestamos. Esse é um inventário que está rolando há 10 anos e esta demora se deve muito à incompetência e omissão dela enquanto inventariante". Nizo também declarou que os bens deixados por Chico aos filhos está focado em um patrimônio intelectual, que inclui roteiros de rádio, textos, livros inéditos e direitos autorais, algo precioso dada a envergadura de Chico Anysio. Aparentemente, essa treta vai longe! 



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