Os bons e os maus: quem criou o que!
A criação uma história em quadrinhos, na grande maioria das vezes, exige um trabalho colaborativo entre duas ou mais pessoas (exceto quando o artista escreve seus roteiros, desenha, arte-finaliza e colore). Atualmente, fica bastante claro e definido quem faz o que, ou seja, quem escreve os roteiros e quem desenha as histórias. Nos idos tempos da chamada Era de Ouro, no entanto, nem sempre era assim. Muitos autores não recebiam os devidos (e merecidos!) créditos por suas contribuições devido à prática da própria indústria de não reconhecer a autoria individual e defender que o material pertencia ao editor ou à empresa. Os artistas trabalhavam sob contrato ("work for Hire") e isso significava que recebiam por trabalho, mas não eram donos do que criavam. Nomes como Jack Kirby, Bill Finger, Jerry Siegel e Joe Shuster ilustram muito bem a batalha por maior reconhecimento nas empresas em que trabalhavam, como a Timely (futura Marvel Comics) ou a National Allied Publications (futura DC Comics). Pois se por um lado a empresa demandava o controle e os direitos da propriedade intelectual e criativa de seus artistas, estes muitas vezes tiveram como "pedra no sapato" aqueles que deveriam ser seus iguais, mas que, de uma forma ou outra, tiraram proveito do trabalho (e do talento) de seus pares. A seguir, um pouco mais sobre alguns deles.
Bill Finger X Bob Kane
Bob Kane [1915-1998] foi creditado por muitas décadas como "único" criador do Batman, cenário que começou a mudar com a publicação do livro de Marc Tyler Nobleman Bill the Boy Wonder: The Secret Co-Creator of Batman, em 2016, o qual foi transformado em um documentário produzido pelo canal Hulu, intitulado Batman & Bill. Na obra, o autor trouxe à tona o que muitos fãs de quadrinhos desconheciam: Bob Kane não tinha criado o Batman sozinho. Ele apresentou o esboço do seu "Bat-Man" (com essa grafia mesmo) a seu amigo Bill Finger [1914-1974] e este modificou radicalmente o conceito de Kane, cujo esboço mostrava um homem loiro, com uma máscara preta que cobria parcialmente o rosto, trajado em um colante vermelho, com asas de morcego fixas nas costas. Finger sugeriu um capuz com orelhas pontudas, que lembrassem a face de um morcego; trocou o traje colante de vermelho para cinza escuro; adicionou uma capa picotada, a qual lembraria asas de morcego em movimento toda vez que o personagem corresse ou saltasse; adicionou à capa e às luvas um tom de azul marinho escuro.
| Kane (à esq.) teve uma ideia, mas foi Finger quem a tornou um sucesso! |
| Ideia bruta X ideia final: Finger melhorou o conceito de Kane em 100% |
Pode se dizer que Bill Finger repaginou a ideia de Kane para um conceito 100% melhor e foi justamente esse que o "esperto" Kane apresentou nos escritórios da National Allied Publications, sozinho, ao então Editor Vin Sullivan, e vendeu a ideia como exclusivamente sua (sem sequer citar o nome de Bill Finger). Na ocasião (a mesma que faz o ladrão!), Kane fez um acordo lucrativo com a DC, no qual receberia uma porcentagem dos direitos de imagem do personagem pelo resto de sua vida. Assim, lucrou com a série de TV e com a primeira onda de batmania gerada, bem como com o filme de 1989 e, consequentemente, com a segunda batmania causada por ele. Finger continuou a trabalhar como empregado nos estúdios do "amigo", onde criou conceitos e personagens que fizeram o Batman ser o sucesso que é hoje. Finger criou a identidade secreta, Gotham City, o batmóvel; os gadgets utilizados pelo herói e sua base secreta, bem como toda uma galeria de vilões. Como agradecimento, recebeu o ostracismo e morreu sozinho, doente, e com problemas financeiros, em 1974.
| Bob Kane deveu sua boa vida à Bill Finger! |
Enquanto isso, Kane desfrutava de uma vida confortável e de riqueza. Se de um lado havia o talento criador (Finger era um amante do cinema e da literatura, de onde tirava muitas de suas inspirações), do outro havia um oportunista feroz, com uma visão empresarial agressiva e perspicaz. Todavia, um dia a máscara cai e atualmente o legado de Kane foi manchado com a descoberta, em anos mais recentes (antes tarde do que nunca!), de que ele teve a colaboração instimável de Bill Finger, de Jerry Robinson, de Dick Sprang e de tantos outros artistas, os quais fizeram grande parte do trabalho para que ele ficasse com o dinheiro e os méritos. Graças ao livro de Nobleman, ainda que tardiamente, o nome de Bill Finger passou a ser creditado em qualquer quadrinho ou mídia derivada na qual Batman seja o personagem principal ou mesmo faça uma aparição. A primeira vez que isso ocorreu foi no filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, em 2016. Como eu disse, antes tarde do que nunca. Afinal, sem Finger, provavelmente a visão de Kane, do tal sujeito trajado em um colante vermelho, sequer visse a luz do dia.
Jack Kirby X Stan Lee
Jack Kirby [1917-1994] e Stan Lee [1922-2018] tinham uma relação de amor e ódio, iniciada ainda nos tempos da Timely (posteriormente rebatizada para Atlas e finalmente para Marvel Comics), quando Stanley Martin Lieber (ainda não usava o pseudônimo de Stan Lee, o qual usaria para escrever quadrinhos e guardaria seu nome de batismo para publicar o "grande romance americano", um sonho que sempre acalentou, mas que nunca pôde realizar) trabalhava na empresa como uma espécie de "faz-tudo". Primo da esposa do dono, Martin Goodman, Stan Lee era considerado um "moleque chato" por Jack Kirby, um dos principais artistas da companhia. Já na época, Kirby estava insatisfeito com a remuneração e a pouca valorização recebida e, secretamente, juntamente com seu amigo e então Editor da Timely, Joe Simon [1913-2011], trabalhava para outras editoras — inclusive a National Allied Publications — sob o uso de pseudônimos. Quando foram descobertos e dedurados para Martin Goodman, seguiu-se uma discussão acalorada e tanto ele quanto Simon foram demitidos. Kirby nunca teve certeza, mas sempre achou que o "dedo duro" tinha sido Stan Lee. Em 1958, os caminhos de Lee e de Kirby voltaram a se cruzar. Desta vez, Lee era o Editor e Kirby precisou engolir o orgulho e trabalhar com ele na Atlas. Afinal, ele precisava pôr comida na mesa de sua família. A parceria entre eles não poderia ter sido mais prolífica e produtiva (mais que isso, foi um marco na indústria dos comics), porque juntos, a partir da década de 1960 e sob a chancela da Marvel Comics, criaram uma série de personagens e conceitos inovadores, que não só colocaram a Editora no mercado como também a fizeram superar sua maior rival, a DC Comics, em vendas. Thor, Hulk, Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico, Galactus e Surfista Prateado foram alguns dos personagens que fizeram sucesso imediato, porque uniam a arte vibrante de Jack Kirby com a humanidade dos personagens, os quais eram poderosos, mas passavam por dilemas e tinham defeitos e fraquezas como qualquer ser humano.
| Stan Lee X Jack Kirby: duas personalidades opostas! |
| Tudo que eles produziam virava ouro nas bancas de jornais! |
O êxito foi estrondoso e simplesmente tudo o que a dupla produzia virava ouro nas bancas de jornais. Entretanto, Lee e Kirby eram personalidades totalmente opostas. Enquanto Lee era exuberante e sabia muito bem explorar tanto sua autoimagem quanto a imagem da empresa em que trabalhava, Kirby era tímido e não se sobressaía em entrevistas. Lee era um "showman" por excelência, que atuou como um publisher eficiente justamente porque entendia perfeitamente o que o público queria. Não à toa, passou a ser "a cara da Marvel Comics", e ainda hoje, para muitos da atual geração, ele "criou o universo Marvel", algo que não corresponde totalmente à verdade. Durante sua permanência na Marvel, Jack Kirby ressentia-se da atenção recebida por Lee, que era creditado como "o criador da Marvel". Ao menos, era essa a impressão que ele passava em entrevistas, justamente por sua exuberância e jeito fanfarrão, que ofuscava o quieto e socialmente desajeitado Kirby. Certa vez, Stan Lee se defendeu ao dizer que não era ele que decidia quem deveria ou não receber créditos, mas o fato é que, mesmo que isso fosse em parte verdade, ele nunca se esforçou para mudar este cenário. Isso e a não devolução de suas artes originais por parte da Marvel (a qual, pela lei americana alegava que as ilustrações tinham sido feitas sob contrato e, como tais, pertenciam à empresa, sem que devessem devolver ou pagar royalties) fizeram com que Jack Kirby abandonasse a Marvel pela primeira vez em 1970, quando foi trabalhar na DC Comics. Lá ele concebeu O Quarto Mundo, saga na qual criou um dos maiores vilões da editora: Darkseid, senhor de Apokolips, além de Nova Gênese, os Novos Deuses e o Povo da Eternidade. Também criou Etrigan, o Demônio, OMAC, Kamandi, Senhor Milagre e Barda. E nestes últimos usou sua arte como desabafo, ao criar o personagem "Funky Flashman", um empresário picareta baseado em Stan Lee, que passou a gerenciar a carreira de Scott Free, o Senhor Milagre, juntamente com seu mordomo puxa-saco, "Houseroy" (calcado em outro de seus desafetos, Roy Thomas).
| Jack Kirby mostrou que era genial com ou sem Stan Lee! |
Era a forma do artista extravasar a mágoa que sentia por Stan Lee. Na DC Kirby provou que não precisava de Lee para ser inovador e genial, pois provou-se também um grande roteirista, muito embora, na época, O Quarto Mundo não tenha sido compreendido por estar muito à frente do seu tempo. Todavia, a tão almejada liberdade criativa que ele esperava ter na DC revelou-se ilusória e um de seus dissabores, com certeza, foi a ordem da Editora de que Al Plastino [1921-2013] redesenhasse o rosto do seu Super-Homem ao estilo de Curt Swan [1920-1996], então o mais prolífico artista a ilustrar o Homem de Aço. O desrespeito o impulsionou de volta à Marvel em 1976, onde foi recebido de braços abertos, sobretudo por Stan Lee. Novamente na Editora que ajudara a ser uma potência no mercado de quadrinhos, Kirby trabalhou na série mensal do Capitão América (personagem que havia criado em conjunto com seu amigo Joe Simon), Devil Dinosaur e criou os Eternos, os quais desejava manter à parte da cronologia Marvel, mas que a Editora queria integrar ao universo regular de heróis e de vilões. Além disso, Kirby não se sentia bem tratado por uma nova geração de profissionais, que ridicularizava a sua arte e o seu legado. Cansado de tudo, da Marvel, da DC, de Stan Lee e da mesquinharia que cercava as grandes editoras, Kirby foi trabalhar com animação, meio no qual permaneceu até sua aposentadoria, em 1987, e onde finalmente sentiu que recebia algum reconhecimento. Por seu turno, Stan Lee foi conhecido por uma nova geração ao fazer aparições bem humoradas nos filmes da Marvel, o que constribuiu para que uma nova geração, que conhece apenas os filmes e nada sabe sobre a história por trás dos personagens, acredite que Stan Lee tenha criado tudo sozinho. A fim de capitalizar em cima desta fama, o canal Disney + lançou o documentário Stan Lee, o qual foi duramente criticado pelo filho de Jack Kirby, Neal. Produzido por David Gelb (Obi-Wan Kenobi: O Retorno do Jedi), foi considerado uma peça de autopromoção para Stan Lee, na qual Lee enfatizou repetidamente o "eu" em detrimento do "nós", como se ele fosse o único responsável pelo sucesso da Marvel Comics. Para Neal Kirby, Lee pôs a si mesmo em um pedestal e o documentário não passou de uma ode ao seu egocentrismo.
Siegel e Shuster X DC
Jerry Siegel [1914-1996] e Joe Shuster [1914-1992] começaram a trabalhar para a National Allied Publications (DC Comics) em 1935, mas em 1933 haviam criado Bill Dunn, um vilão calvo chamado "Superman", dotado de poderes telepáticos e com a ambição de dominar o mundo. Publicado em uma história curta intitulada "The Reign of Superman" ("O Reinado do Super-Homem"), saiu no fanzine chamado Science Fiction: The Advance Guard of Future Civilization #3 (janeiro de 1933), um dos primeiros criados nos EUA. Dunn não agradou e, no ano seguinte, foi repaginado para um aventureiro pulp sem superpoderes (o conceito foi posteriormente reaproveitado para Slam Bradley, um detetive que estreou nas páginas da Detective Comics #1, em março de 1937). A dupla começou então a tentar vender o novo herói. Eles bateram à porta da Consolidated Book Publishing, que havia enviado uma carta encorajadora aos jovens. No entanto, a Editora nunca mais publicaria quadrinhos e a história foi rejeitada por outros editores, o que frustrou e irritou Shuster a ponto de jogar no fogo as páginas desenhadas. Destas, restou apenas a capa, salva por Jerry Siegel. Entre 1934 e 1937, Siegel e Shuster lapidaram a sua versão final do super-herói: um alienígena dotado de poderes fantásticos. A National Allied Publications aceitou publicar o novo personagem na — hoje histórica e valiosíssima! — Action Comics Vol.1 #1 (junho de 1938).
A dupla topou vender os direitos do Super-Homem por US$ 130 dólares, referentes às 13 páginas de enredo e desenhos da estreia do Homem de Aço, em um contrato entre autores e editora em que esse valor cobriria "direitos perpétuos e exclusivos do uso do personagem". Como puderam perceber logo em seguida, os dois amigos fizeram o pior negócio de suas vidas, talvez por que não esperassem - e nem a DC! - que o Super-Homem fizesse tão estrondoso sucesso. Seu contrato de trabalho com a Detective Comics Inc. (uma afiliada da National Allied Publications) cedia à empresa o direito de preferência sobre quaisquer materiais de quadrinhos que Siegel e Shuster produzissem pelos dois anos seguintes, além de estipular um pagamento por página produzida de US$ 10 dólares. Insatisfeitos, Siegel e Shuster deram início a longa batalha judicial para rever os direitos de sua criação, primeiramente em 1947 e posteriormente em 1967, quando houve uma renovação dos direitos autorais de acordo com a legislação. A longa luta dos criadores contou com o apoio do público e de Neal Adams [1941-2022], então um jovem artista em ascensão, o qual se valeu de seu prestígio a fim de pressionar a DC a conceder a Siegel e a Shuster uma pensão e o devido reconhecimento. O longo período desgastou seriamente a saúde de ambos. Shuster ficou parcialmente cego de um olho e Siegel foi acometido por um infarto em 1975.
| Shuster (à esquerda) e Siegel lutaram arduamente por reconhecimento! |
A DC finalmente aceitou pagar US$ 20 mil dólares anuais a eles, pelo resto de suas vidas. O caso se tornou lei em 1976, a Copyright Act, a qual garantiria que qualquer autor de uma obra ou seus herdeiros poderiam encerrar a cessão de direitos autorais, desde que a criação não tivesse sido resultante de um trabalho contratado (o famoso "work for hire"), no qual as editoras deitaram e rolaram em cima de criadores como Siegel e Shuster, prática draconiana na qual tomavam posse da criação de terceiros sem o devido reconhecimento e o pagamento de royalties. A nova lei foi posta em prática em 1997 pela família de Siegel, quando foi pedido o término da transferência de direitos contra a Warner Bros. Entertainment Inc., a Time Warner Inc. e a DC Comics, mas foi somente em 1999 que a metade dos direitos do Super-Homem foi concedida aos herdeiros. A disputa ainda se estendeu por mais nove anos e, finalmente, em 2008, os herdeiros foram declarados coproprietários da criação de Clark Kent "A.K.A." Clark Kent "A.K.A." Super-Homem. Jerry Siegel e Joe Shuster, assim como Bill Finger e Jack Kirby, amargaram a falta de reconhecimento, o prejuízo financeiro e da saúde em detrimento de uma indústria cujas práticas os levaram à riqueza imoral muitas vezes propiciada pela ingenuidade de seus artistas. Afortunadamente, os tempos mudam e com eles as leis. Atualmente, já não é mais possível para "as grandes" tomarem todo o lucro para si sem dar os devidos créditos e fazer os devidos pagamentos.
Steve Ditko X Stan Lee
| Lee, Kirby e Ditko estiveram envolvidos na gênese do Homem-Aranha! |
| O esboço de Kirby ficou épico demais! |

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