12 março 2026

 Autore(a)s e seus pseudônimos!




O uso de um pseudônimo pode ser bastante útil quando um autor famoso deseja trilhar o caminho da experimentação e investir em gêneros de escrita diferentes, ou até mesmo testar um estilo diferente do que habitualmente o público está acostumado. Desta forma, mantém sua identidade intacta enquanto publica sob um novo nome e, se for sucesso, tanto melhor. A ordem do dia é escapar da pressão e das expectativas muitas vezes esmagadoras do público. Todavia, em uma era de redes sociais, onde torna-se cada vez mais difícil manter o anonimato, um novo nome pode ter vida curta. O lado bom é que muitas vezes a descoberta faz aumentar o interesse e a tiragem de livros de determinado escriba, o que, financeiramente, é sempre muito bem-vindo. A seguir, alguns autores e autoras que, por uma razão ou outra, fizeram uso de pseudônimos e a história por trás deles.




Stephen King

 

Richard Bachman nasceu do desejo de Stephen King de descobrir se o seu sucesso se devia a talento ou a sorte, além de uma vontade de aumentar sua produção, algo até então engessado à estipulação de sua editora, de que ele estaria limitado a um livro por ano. A saída foi, em 1977, criar um pseudônimo, e a história de sua criação é das mais interessantes, a começar pelo nome. Inicialmente, King optou pelo nome de seu avô materno, Gus Pillsbury, mas, como este foi revelado, precisou escolher outro. "Richard" foi uma homenagem a Richard Stark, pseudônimo do escritor Donald E. Westlake e "Bachman" foi inspirado por uma banda de rock que King ouvia na época, a "Bachman-Turner Overdrive". King inventou uma biografia para seu alter ego, como por exemplo o fato de ser casado com Claudia Inez Bachman, com quem teve um filho morto por afogamento em um poço. Criativo e dado a bizarrices, King inventou que Bachman tinha descoberto um tumor cerebral próximo à base do cérebro, o qual foi cirurgicamente removido. Para dar vida a Richard Bachman, um amigo do agente de King, Richard Manuel, aceitou emprestar sua imagem para as fotos de autor nos livros, a qual foi creditada à esposa fictícia, Claudia Inez Bachman. A farsa terminou em 1985, quando Bachman foi descoberto, o que deixou King sem a resposta que tanto desejava. Para finalmente "sepultar" Richard Bachman, comunicados de imprensa revelaram que ele havia "morrido subitamente no final de 1985, de câncer do pseudônimo, uma forma rara de esquizonomia", algo bem ao gosto do humor sempre ácido de Stephen King. 




J.K. Rowlling


A festejada autora da série Harry Potter, J.K. Rowlling, sempre foi fã da literatura policial, o que fez com que investisse no gênero, mas com outra identidade. O pseudônimo Robert Galbraith teve o propósito de dissociar a sua imagem já consolidada no mercado literário e relembrá-la do seu início como escritora, quando trabalhava sem alarde e sem altas expectativas. Um nome masculino pareceu, então, uma boa ideia e "Robert" foi inspirado por Robert F. Kennedy [1925-1968], um de seus heróisO sobrenome "Galbraith" surgiu por um motivo peculiar. Quando criança, Rowlling queria muito se chamar "Ella Galbraith" e não fazia ideia do porquê. A autora chegou a considerar o nome LA Galbraith para a série de livros protagonizada pelo detetive particular Cormoran Strike, mas desistiu. Em sua biografia fabricada, Robert Galbraith recebeu um background militar, algo que Rowlling considerou bastante plausível pelo conhecimento que este teria sobre o funcionamento de uma divisão de investigações. Outra (boa!) razão para fazê-lo parecer um militar empregado no setor de segurança civil era ter uma desculpa "convincente" para não aparecer em público e tampouco oferecer uma fotografia para a divulgação de seus livros. A revelação de que Galbraith era, na verdade, Rowlling, ocorreu em 2013, pouco após a publicação da obra de estreia: O Chamado do Cuco (The Cuckoo´s Calling). O segredo vazou de um sócio do escritório de advocacia de Rowlling, Chris Gossage, e o impacto fez as vendas dispararem astronomicamente!  Mesmo após a revelação, J.K. Rowlling decidiu manter o nome de Robert Galbraith nos livros seguintes da série. 




George Orwell


Eric Arthur Blair [1903-1950], entre outras, escreveu duas das maiores obras da literatura do século XX: A Revolução dos Bichos (1945) e 1984 (1948), cujo impacto e influência reverberam até os dias atuais. Tanto que, nas páginas de 1984 foi cunhado o termo "orwelliano", para designar regimes distópicos e totalitários como o caracterizado pela emblemática figura do "Grande Irmão" ("Big Brother"). Crítico ferrenho ao autoritarismo e às injustiças sociais, Blair criou o pseudônimo George Orwell para não causar constrangimentos à sua família devido a publicação, em 1933, de seu primeiro livro: Na Pior em Paris e Londres, o qual narrava suas experiências como sem-teto. Em uma lista de opções fornecidas a seu editor — inclusive P.S. Burton e Kenneth Miles —, George Orwell foi a escolha definitiva. A opção por um pseudônimo foi, provavelmente, a tentativa de criar uma identidade desvinculada do período no qual ele atuou como policial na Birmânia.




Donald Westlake


Donald Edwin Westlake [1933-2008] é um caso interessante de autor que usou pseudônimos, porque criou praticamente um alter ego quase que totalmente dissociado de si mesmo, com estilos de escrita um tanto distintos entre si. Westlake escreveu mais de 100 romances, dos quais grande parte são ficção policial, gênero que dominou e o tornou célebre com a série Parker, protagonizada por um criminoso profissional, cuja popularidade, no final da década de 1960, tornou-se mais lucrativa para Westlake do que usar seu nome verdadeiroO pseudônimo Richard Stark foi escolhido em homenagem ao ator Richard Widmark [1914-2008], cuja atuação no filme O Beijo da Morte (Kiss of Death), de 1947, impressionou o escritor. Os textos escritos como Stark eram frequentemente mais frios, sombrios e menos sentimentais do que a prosa habitual de Westlake. Sobre a diferença de estilos, Westlake, em um artigo de 2001 para o New York Times Review, declarou: "Stark e Westlake usam a linguagem de maneiras muito diferentes. Em certa medida, são imagens espelhadas. Westlake é alusivo, indireto, referencial, um tanto rococó. Stark reduz suas frases à informação necessária".  A estreia de Westlake como Richard Stark ocorreu em 1959, com o conto "Mystery Digest". Outros pseudônimos do escritor incluem Alan Marshall (ou Alan Marsh), James Blue, John Dexter, Andrew Shaw, entre vários outros, mas nenhum com o mesmo sucesso de Richard Stark.  




Anne Rice


Anne Rice [1941-2021], cujo nome de batismo era Howard Allen O´Brien, fez grande sucesso com seu universo vampírico presente nas Crônicas Vampirescas (The Vampire Chronicles), onde contou a saga do vampiro Lestat, Louis, Armand e diversos outros seres da noite repletos de paixões, defeitos e qualidades tão humanas que torna irresistível a leitura de suas obras. Rice fez uso de pseudônimos para escrever sobre outros temas. Como A.N. Roquelaure, escreveu a série erótica e de fantasia A Bela Adormecida: The Claiming of Sleeping Beauty (1983), Beauty´s Punishment (1984), Beauty Release (1985) e Beauty Kingdom (2016). Outro pseudônimo utilizado foi Anne Rampling, com o qual publicou romances eróticos contemporâneos, como Exit to Eden (1985) e Belinda (1986). Mesmo em suas Crônicas Vampirescas há um forte teor homoerótico, mas o uso dos pseudônimos citados certamente possibilitou maior liberdade para que ela se aprofundasse no tema sem comprometer seu universo vampírico. Após o falecimento do seu marido, o poeta e pintor Stan Rice [1942-2002], a autora anunciou que deixaria os vampiros, as bruxas e outros seres fantásticos para se dedicar a outros gêneros literários. Assim, em 2005, publicou Christ The Lord: Out of Egypt, o qual foi lançado como Anne Rice. 




Nelson Rodrigues


Nelson Falcão Rodrigues [1912-1980] é considerado o dramaturgo mais influente do Brasil, o qual fez uso de dois pseudônimos durante a sua atividade profissional. Como Suzana Flag, produziu crônicas e textos para O Jornal, para a coluna intitulada "Meu destino é pecar", a qual era publicada em formato de folhetim. Nela, o autor contava sobre Leninha, que se casou obrigada com Paulo devido às dívidas da família e eventualmente se envolveu com Maurício, irmão de seu marido. A coluna triplicou a tiragem do Jornal, o que revelou grande aceitação pelos textos de Suzana Flag. No Jornal A Última Hora, Com seu próprio nome, Rodrigues publicou a coluna intitulada "A vida como ela é", na qual abordava temos como incesto, adultério, morte e perversões da psique humana. As colunas e Suzana Flag deram origem a seis livros: Meu destino é pecar, Escravas do amor, Minha vida, Núpcias de fogo, O homem proibido e A mentira, lançados entre o final da década de 1940 e início dos anos 1950. Outro pseudônimo adotado por Nelson Rodrigues, também feminino, foi Myrna, criado em 1949 para o Jornal Correio da Manhã, no qual assinou a coluna "Myrna Responde", onde dava conselhos amorosos e debatia o comportamento masculino e feminino. Verdadeira expert dos "assuntos do coração", Myrna escreveu o romance em folhetim A mulher que amou demais, lançado em 1949. Com seus dois pseudônimos, Nelson Rodrigues criou personagens femininas inesquecíveis, loucas, neuróticas, taradas, que amavam, traiam ou eram submissas. 




Machado de Assis


Joaquim Maria Machado de Assis [1839-1908], o maior expoente da literatura brasileira, deixou como legado uma obra que abrangeu praticamente todos os gêneros, entre os quais poesia, crônica, romance, dramaturgia, conto, folhetim, jornalismo e crítica literária. O autor esteve presente em dois momentos históricos de suma importância: a Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889), além de outros eventos relevantes entre o final do século XIX e início do século XX. A extensa produção de Machado de Assis constitui-se de 10 romances, 205 contos, 10 peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos e mais de 600 crônicas. Além disso, ele é considerado o introdutor do Realismo na literatura, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Ao longo de sua trajetória, o escritor fez uso de inúmeros pseudônimos, entre os quais Dr. Semana, Manassés, Victor de Paula, Lélio, João das Regras, Malvolio, Boas Noites, Platão, Job, Lara, Max, apenas para citar alguns. Seu apelido famoso era Bruxo do Cosme Velho. Como autor de crônicas semanais, ele empregava pseudônimos a fim de ter maior liberdade editorial. Além disso, permitia que assinasse com diferentes personalidades, como Victor Leal, um pseudônimo compartilhado com outros profissionais.  



Stan Lee


Eis um caso curioso! Stan Lee, nascido Stanley Martin Lieber [1922-2018], não era um escritor de livros ou um jornalista com uma coluna badalada em algum periódico. Ele era um escritor de histórias em quadrinhos, o qual,  posteriormente, tornou-se Editor-Chefe da Marvel Comics e depois o rosto público da "Casa das Ideias", já que era tão bom em vender a própria imagem e a da empresa em que trabalhava. Curiosamente, Lee sempre acalentou o sonho de, um dia, escrever "o grande romance americano", o qual pretendia publicar com seu nome de batismo. Stan Lee era reservado para os quadrinhos, um meio que o próprio declarou ser vítima de preconceitos. Afinal, se atualmente muitos quadrinistas desfrutam do status de celebridade, houve um tempo em que a profissão não era levada a sério. Escrever quadrinhos — ou desenhá-los — era considerado um trabalho menor, infantil, bobo e, no início dos anos 1960, Lee já estava farto dos comics e prestes a pedir demissão, quando o sucesso inesperado de personagens como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Hulk, Vingadores e X-Men o fizeram permanecer na Marvel e nunca mais sair. O best-seller com autoria de Stanley Martin Lieber nunca saiu, mas Stan Lee continuou a fazer história ao lado de lendas como Jack Kirby, Steve Ditko, Wally Wood e John Romita.




Agatha Christie


A fim de se distanciar de sua persona famosa pelos romances policiais, Agatha Christie [1890-1976], adotou o pseudônimo de Mary Westmacott, entre 1930 e 1956, para publicar seis romances focados na psicologia humana e nas emoções. Seu objetivo era produzir um material livre da expectativa pública por seus romances de mistério, haja vista o estrondoso sucesso que faziam (e fazem, ainda hoje!). Os livros de Westmacott eram: Entre Dois Amores (1930), Retrato Inacabado (1934), Ausência na Primavera (1944), O Conflito (1947), Filha é Filha (1952) e O Fardo (1956), todos publicados no Brasil pela Editora L&PM. Além desse pseudônimo, após seu segundo casamento, ela ocasionalmente assinava como Agatha Christie Mallowan, muito embora Agatha Christie fosse o principal. Segundo o Guinness Book, Agatha Christie é a romancista mais bem sucedida da literatura popular mundial em número total de livros vendidos, uma vez que suas obras juntas venderam cerca de quatro bilhões de cópias ao longo dos séculos XX e XXI, cujos números totais só ficam atrás das obras de William Shakespeare e da Bíblia.  

 


Irmãs Brönte


Charlotte [1816-1855] Emily [1818-1848]Anne [1820-1849] eram as irmãs Brönte, escritoras e poetisas amplamente conhecidas pelo grande público. O interessante é que cada uma delas usou um pseudônimo masculino antes de alcançar a fama. Quando elas decidiram publicar juntas um livro de poesia, em 1846, usaram os seguintes pseudônimos: Currer Bell, Ellis Bell e Acton Bell. As iniciais de seus nomes foram mantidas e o sobrenome Bell foi inspirado em Bell Nichols, um vigário que chegara a Haworth meses antes para trabalhar para o pai delas e que, mais tarde, casou-se com Charlotte. Quando Emily publicou O Morro dos Ventos Uivantes, Anne A Inquilina de Wildfell Hall e Charlotte Jane Eyre, as três continuaram a usar seus pseudônimos masculinos, os quais foram bastante úteis para preservar a vida pacata e tranquila que gostavam de levar em sua residência em Yorkshire e escapar dos preconceitos da conservadora — e hipócrita! — sociedade vitorianaQuando tentaram vender seus romances, o editor Thomas Newby concordou em publicar O Morro dos Ventos Uivantes e Agnes Grey, cujo sucesso foi moderado. No entanto, Jane Eyre fez um sucesso inesperado, e repentinamente Newby viu uma oportunidade de capitalizar também em cima dos livros de Anne e de Emily. Ele espalhou o boato de que os "irmãos Bell" eram, na verdade, uma única pessoa. A repercussão na imprensa fez com que o editor de Charlotte, George Smith, escrevesse ao "Sr. Currer Bell" e lhe pedisse que confirmasse que não era também o Sr. Acton Bell e o Sr. Ellis Bell. Charlotte e Anne deixaram a reclusa Emily em casa e partiram para Londres a fim de resolver a situação. Ao chegarem ao escritório de Smith, ele foi informado que "os senhores Bell" o aguardavam mas, ao entrar, deparou-se com duas mulheres pequenas e delicadas. Charlotte mostrou-lhe a carta que ele tinha enviado ao "Sr. Currer Bell" e, quando um atônito Smith perguntou-lhe como a tinha conseguido, ela respondeu que ele mesmo a havia mandado e assim a confusão foi desfeita.  



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