03 março 2026

Stephen King e um mistério sem solução!





Stephen King é frequentemente mencionado como "mestre do terror", mas quem lê seus livros há um bom tempo sabe que o autor ocasionalmente transita pelo gênero policial e muito bem, diga-se de passagem (vide a trilogia Mr. Mercedes e os livros em que a investigadora Holy Gibney aparece como personagem principal). Em O Garoto do Colorado, publicado nos EUA em 2005 pela Hard Case Crime, King apresenta ao leitor um mistério em torno de uma morte que pode ou não ter sido um assassinato, cujo mistério se manteve sem solução mesmo com o final da história, mas cuja jornada, assim mesmo, é apreciada pela qualidade narrativa indiscutível de King e sua habilidade na criação de personagens "acreditáveis", tão críveis sem seu mundo imaginário, que poderiam muito bem ser "o sujeito na casa ao lado". A trama começa em abril de 1980, em Moose-Lookit, uma pacata ilha na Costa do Maine, quando um casal de estudantes fazia a sua corrida matinal e repentinamente deparou-se com um homem morto, encostado em uma lata de lixo e sem documentos. Não havia indícios de crime, mas a identidade do morto e a causa mortis permaneceram envoltas em mistério. Havia um grande pedaço de carne preso em sua garganta, o que indicava asfixia. Teria o homem morrido acidentalmente enquanto fazia sua derradeira refeição, ou a carne teria sido introduzida em sua garganta após a morte a fim de simular uma asfixia acidental? O homem tinha alguns trocados no bolso, um maço de cigarros cheio exceto por um cigarro e uma moeda russa. O mistério, ao menos sobre seu nome, se manteve por mais de um ano, quando descobriu-se que ele era James Coogan, ilustrador publicitário, casado e com um filho. Vinte e cinco anos depois, ao relembrar mistérios não solucionados da Ilha, a equipe do The Weekly Islander, composta por Vince Teague, o fundador de 94 anos, o editor Dave Bowie, de 65, e a jovem e recém-chegada estagiária Stephanie McCann, discutiu o caso anteriormente batizado de "O Garoto do Colorado".



Os veteranos jornalistas, a fim de testar as habilidades de sua nova contratada, começaram a relembrar os pormenores do caso. Graças à tenacidade de um policial novato, a identidade do então indigente ficou conhecida após ter sido identificado o selo fiscal do cigarro que se encontrava entre os pertences do homem, o que levou a Nederland, Colorado. Depois, descobriu-se que Coogan não era fumante, o que aumentou ainda mais o mistério em torno de si. Coogan era relativamente bem sucedido, não havia indícios de infidelidade no casamento ou de uso de drogas. Ele fora visto pela última vez em um dia de trabalho aparentemente normal. As razões pelas quais um profissional do Colorado teria viajado mais de 3.000 Km até o Maine, nas cinco horas entre o momento em que fora visto pela última vez no Colorado e o momento em que fora visto pela primeira vez no Maine despertaram o assombro e a curiosidade crescentes daqueles que investigavam o caso. Teague e Bowie conjecturaram que Coogan pode ter fretado um voo para o Maine devido a uma possível emergência, e os cigarros do Colorado poderiam oferecer uma pista caso algo lhe acontecesse. A moeda russa em seu bolso também levou os dois velhos homens da imprensa a teorizarem que ele poderia ser um espião a serviço da KGB (vale lembrar que, nos anos 1980, a Guerra Fria entre EUA e União Soviética estava a todo o vapor!). Todavia, conforme dito na abertura deste texto, o caso ficou sem solução até o folhear da última página, o que pode ter frustrado alguns leitores. Para King, no entanto, a resolução do caso não era a sua preocupação, muito embora ele pudesse oferecer três ou quatro. Ele queria trabalhar o mistério, a reunião de pistas e a magia de conduzir o leitor por um labirinto no qual cada resposta suscitava a mais perguntas. E nisso ele alcançou seu intento com o brilhantismo de sempre. Posteriormente foi produzida uma série de TV, Haven (2010-2015), na qual o caso do Garoto do Colorado é citado, mas o programa seguiu um caminho totalmente diferente, onde quase nada tem relação com o livro. A obra foi publicada no Brasil recentemente pela SUMA das Letras e, para quem é fã do trabalho de Stephen King, vale muito a pena!



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