01 março 2026

 Heroes: você também pode, mesmo que por um dia!



Tão interessante quanto ouvir uma boa música ou assistir a um bom filme é saber histórias de bastidores, sobre o processo criativo em si mesmo. No caso do mundo musical, a canção "Heroes", do multifacetado David Bowie [1947-2016], tem uma origem curiosa em sua inspiração. A letra fala sobre a capacidade de qualquer um ser um herói, mesmo que por um único dia. Mais do que isso, fala sobre amor e resistência à opressão, caracterizada por um muro que dividiu uma nação ideologicamente por quase 30 anos. Refiro-me, logicamente, ao Muro de Berlim, erguido em 1961 e finalmente derrubado em 1989. A música começou a tomar forma em 1977, quando, da janela de um estúdio, Bowie avistou o seu produtor, Tony Visconti, dar um beijo apaixonado na cantora Antonia Maass, bem em frente ao muro. 




Na época, Visconti era casado, o que fez Bowie manter silêncio sobre sua real inspiração por muito tempo. Bowie posteriormente declarou ter achado muito comovente ver o quanto Visconti estava apaixonado pela garota, e foi desse relacionamento que a música nasceu. Antonia conheceu Bowie e Visconti em um clube de Berlim e, com sua banda, Messengers, gravou nos estúdios Hansa na mesma época que Bowie. Ela foi convidada pelo cantor para os vocais de apoio no álbum "Heroes", em várias faixas, inclusive na música-título e em "Beauty and the Beast". Curiosamente, Maass também escreveu a letra da versão alemã de "Heroes", "Helden", que ela ensinou a Bowie como pronunciar. Trata-se de um clássico atemporal, mais uma canção inesquecível de uma discografia repleta de sucessos. 


A Letra


Eu, eu gostaria que você pudesse nadar
I, I wish you could swim


Como os golfinhos, como golfinhos podem nadar 
Like the dolphins, like dolphins can swim


Embora nada, nada nos manterá juntos 
Though nothing, nothing will keep us together


Nós podemos derrotá-los para sempre e sempre
We can beat them forever and ever


Ah, nós podemos ser heróis apenas por um dia
We can be heroes, just for one day


Eu, eu serei rei
I, I will be king


E você, você será rainha
And you, you will be queen


Embora nada irá afastá-los
Though nothing will drive them away


Nós podemos ser heróis apenas por um dia
We can be heroes just for one day


Nós podemos ser nós mesmos apenas por um dia
We can be us just for one day


Eu, eu posso me lembrar 
I, I can remember


De ficar em pé próximo ao muro 
Standing by the wall


E das armas disparada sobre nossas cabeças
And the guns shot above our heads


E nós nos beijamos como se nada pudesse desmoronar
And we kissed as though nothing could fall


E a vergonha estava do outro lado
And the shame was on the other side


Nós podemos derrotá-los para sempre e sempre
We can beat them forever and ever

Então poderíamos ser heróis apenas por um dia
Then we could be heroes just for one day.



Impacto na cultura popular


"Heroes" é a canção mais regravada na discografia de David Bowie após "Rebel Rebel", com versões memoráveis de bandas como Green Day, Oasis e Depeche Mode. A música também pode ser ouvida em trilhas sonoras marcantes, como no seriado Stranger Things, onde, no final de 2022, foi tocada três vezes, o que marcou o aumento de quase 500% nas reproduções. Inegavelmente, a música tornou-se um símbolo marcante da Berlim dividida em dois blocos (capitalista X socialista). A canção, composta na fase "andrógina" de David Bowie, também desafia padrões de gênero e de sexualidade e serve como um hino de encorajamento a jovens que se sentiam (se sentem!) socialmente marginalizados. Afinal, a mensagem é forte demais para ser ignorada: "Nós podemos ser heróis, mesmo que por um dia", independente de opção sexual, raça ou credo. 






O (famigerado!) Muro de Berlim


Após o fim da Segunda Guerra Mundial, instaurou-se a Guerra Fria, o embate ideológico entre as potências capitalista e socialista. A divisão da Alemanha foi o resultado da derrota na Segunda Guerra Mundial. Após a Batalha de Berilm, todo o território alemão foi ocupado pelas forças aliadas e dividido em quatro zonas: francesa, americana, britânica e soviética. Tal divisão reproduziu-se na totalidade do território alemão, mais especificamente na capital, Berlim. À medida que a polarização global era definida ao final da década de 1940, as zonas ocupadas foram transformadas em nações distintas: a República Federal da Alemanha (RFA), também conhecida como Alemanha Ocidental, e a República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, a fim de atender aos interesses políticos/econômicos do EUA e da URSS. Em 1961, o Muro de Berlim foi construído com o objetivo de impedir que a população da Alemanha Oriental continuasse a fugir para a Berlim Ocidental. A fuga da população aconteceu durante toda a década de 1950 e 1960. A Alemanha Ocidental, por  meio do Plano Marshall, recebeu uma enorme quantia de dinheiro americano, enviado com o propósito de promover a recuperação e o desenvolvimento econômico de determinados países no intuito de impedir o crescimento comunista nesses locais. Assim, a situação econômica da Berlim Ocidental era muito superior a da Berlim Oriental, porque possibilitava maior liberdade política individual e possuía maior número de trabalhadores qualificados. Por sua vez, a Alemanha Oriental possuía a Stasi, a polícia secreta responsável por coordenar uma rede de informantes em todo o país. 




Em um cenário de opressão crescente, de censura e de total falta de liberdade, o êxodo populacional era extremamente atraente. Entre 1948 e 1961, três milhões de pessoas abandonaram a Alemanha Oriental. A fuga de mão de obra qualificada alarmou as autoridades da Alemanha Oriental e, a partir de 1958, a Stasi foi mobilizada, mas com resultados insatisfatórios. A própria polícia secreta sugeriu que o único meio de coibir o êxodo populacional seria uma barreira física. Desta forma, as autoridades da Alemanha Oriental pediram autorização para a construção do muro. Naquele ano, o governante Walter Ulbricht solicitou a autorização de Moscou, a qual foi concedida no mês de junho. O processo de construção estendeu-se até agosto. O projeto fez parte da Operação Rosa, na qual somente o alto escalão da Alemanha Oriental e da União Soviética tinha conhecimento sobre a construção do muro. O governo Oriental valia-se do segredo não apenas como forma direta para lidar com a fuga da população, como também para evitar uma fuga expressiva de "última hora" e uma possível reação negativa do Ocidente que pusesse em risco a construção. O chefe de segurança do Politburo (Comitê do Partido Comunista na Alemanha Oriental), Erich Honecker, foi nomeado para ser o líder da operação que construiu o Muro de Berlim. Como parte dos preparativos para a construção, tanques soviéticos e alemães orientais foram posicionados em locais estratégicos e soldados foram espalhados por todo o perímetro da Berlim Ocidental. Em 13 de agosto de 1961, os soldados começaram a implantar o arame farpado ao redor de Berlim Ocidental, o que marcou o fechamento da fronteira. 




Nos anos seguintes, foram realizadas outras obras que concretizaram o Muro de Berlim. Foi erigido um altíssimo muro de concreto, torres de segurança e pistas de corrida para que cães de guarda pudessem perseguir as pessoas que tentassem atravessar. Para completar, soldados com armamentos pesados foram posicionados na estrutura do muro, com ordens para atirar contra quem tentasse atravessar, inclusive mulheres, idosos e crianças. Após 13 de agosto, o número de pessoas que conseguiu escapar foi de aproximadamente cinco mil. Ao todo, 140 pessoas foram mortas, entre civis e soldados que tentaram atravessar. A queda do Muro de Berlim se deu com a crise enfrentada pelo bloco socialista durante a década de 1980. Protestos espalharam-se pelo país e, quando a Hungria determinou a abertura de sua fronteira com o Ocidente, milhares de cidadãos da Alemanha Oriental procuraram fugir por essa abertura. Em julho de 1989, cerca de 25 mil pessoas haviam pedido autorização para passar férias na Hungria. Com as fronteiras húngaras abertas, as pessoas que fossem para lá poderiam ir facilmente para a Áustria. Em nove de novembro de 1989, o porta-voz do governo da RDA, em uma coletiva de imprensa, anunciou equivocadamente que as fronteiras do país com o Ocidente estavam abertas. No mesmo dia, milhares de pessoas foram para os postos de fronteira, onde exigiram o direito de atravessar para a Alemanha Ocidental. Para evitar uma tragédia - na verdade, temeroso pela reação de seu povo! -, o governo da Alemanha Oriental confirmou a abertura das fronteiras e, no dia 10 de novembro, milhares de pessoas uniram-se para a derrubada do Muro de Berlim, em um momento histórico. O ano seguinte marcou a reunificação da Alemanha após 28 anos de divisão.




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