15 março 2026

 Uma caminhada rumo à morte!




Ao ler A Longa Marcha (The Long Walk), escrito em 1979 por Stephen King (ou melhor, por seu alter ego, Richard Bachman), deparei-me com uma leitura densa, sufocante, mas difícil de largar. A trama apresenta uma distopia — sem situá-la no tempo, o que em nada atrapalha, porque tal atemporalidade torna a obra atual e fascinante mesmo lida hoje, 47 anos após o seu lançamento original —, representada por uma disputa de resistência denominada "A Grande Marcha", a qual reúne anualmente 100 jovens que devem caminhar indefinidamente até que reste apenas um, vivo e em pé. Este será contemplado com "O Prêmio", que é algo que o vencedor mais deseja, e pelo resto da vida. Aqueles que reduzirem a marcha abaixo de um limite estabelecido ou pararem, receberão advertências, em um total de três; depois disso, levam um tiro e são removidos da rodovia. A jornada leva o personagem principal, Ray Garraty, um garoto do Maine que se inscreveu na prova à revelia de sua mãe, e outros competidores a reflexões profundas durante a caminhada, sobre como ou por que decidiram cometer suicídio. A cada vez que um deles morre na estrada, há a sensação de culpa mesclada ao alívio vergonhoso (o "antes ele do que eu") e a renovação da esperança de, talvez, vencer um jogo tão cruel e tão brutal. 



A cada nova cidade, os participantes também se deparam com multidões de pessoas ávidas por sangue, na torcida pelo seu favorito. O torneio é acompanhado de perto por um pelotão em um veículo batizado de "a grande lagarta", comandado pelo Major, a autoridade máxima, fria e desumanizante, o qual supervisiona o torneio de forma sádica e insensível e torna a dor e o sofrimento alheio em espetáculo para as massas. Muito antes de distopias como Jogos Vorazes e Maze Runner fazerem sucesso, King já mostrava como uma sociedade pode reduzir alguém a menos que um animal em busca da sobrevivência, este instinto tão primitivo que nos anima e impulsiona ainda hoje. Mesmo reconhecido pelas tramas sobrenaturais e com elementos fantásticos, o autor também se sai comprovadamente muito bem em outras temáticas. O livro foi adaptado ao cinema recentemente, no longa intitulado A Longa Marcha: Caminhe ou Morra (2025), dirigido por Francis Lawrence, curiosamente também o diretor de Jogos Vorazes. A trama do filme, ao que parece — porque não assisti —, coloca o personagem do Major, interpretado por Mark Hamill, em maior destaque dentro do enredo. No livro, o número de competidores é retratado por 50 jovens, em vez de cem, como no livro.  



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