Robin Vive!
O segundo Robin, Jason Todd, era um personagem irritante do qual poucos leitores gostavam, tanto que a DC Comics tomou a decisão de eliminá-lo de uma forma inédita: deixou nas mãos dos fãs decretar a vida ou a morte do Menino Prodígio. Para isso, disponibilizou dois números de telefone. Reza a lenda que o número destinado a acolher a votação "com o polegar abaixado" recebeu uma enxurrada de ligações, de um suposto fã que não suportava Todd como Robin. E assim, como a maioria vence, Jason morreu em um dos momentos mais emocionais e marcantes da trajetória do Batman nos quadrinhos, na saga Batman: Morte em Família (Batman: A Death in the Family), publicada entre 1988 e 1989. A trama contou com roteiro de Jim Starlin, arte de Jim Aparo e Mike Mignola (nas capas), em um enredo meio "sem pé nem cabeça", no qual Jason Todd vai parar na Etiópia em busca de sua verdadeira mãe, enquanto Batman persegue o Coringa, também no país, com mais um de seus planos terríveis. Quando Jason finalmente encontrou Sheila Haywood, sua verdadeira mãe, uma assistente social chantageada pelo Coringa, o qual descobriu que ela praticara medicina ilegal em Gotham e que uma de suas pacientes tinha morrido devido a um aborto malsucedido, em troca de não denunciá-la, o vilão forçou Sheila a lhe fornecer medicamentos contrabandeados. Seu propósito era adulterar o conteúdo no intuito de convertê-lo em seu mortífero gás hilariante e assim matar milhões de pessoas. Quando Jason se revelou como Robin e tentou deter o Coringa, foi espancado brutalmente com um pé de cabra, em uma das cenas mais sombrias e chocantes da história dos Quadrinhos.
Deixado para morrer juntamente com sua mãe, que nada fez para ajudá-lo, o Robin ainda tentou escapar, mas a bomba deixada no barracão em que estavam só lhe deu tempo de saltar sobre a sua mãe em um esforço desesperado para tentar salvá-la. Batman chegou tarde demais e logo sua mente foi assaltada por lembranças, do quanto Jason era rebelde e do quanto ele, talvez, tenha errado em iniciá-lo naquela vida cedo demais. Até aí, a história é palatável a qualquer fã de HQ´s, mas descambou para o terreno do absurdo quando o Coringa foi nomeado embaixador do Irã pelo próprio Ruhollah Khomeini! Quando o Coringa se apresentou no prédio da ONU em Nova Iorque, o Departamento de Estado dos EUA enviou o Super-Homem para monitorar seu amigo Batman, a fim de impedir um massacre promovido pelo Cavaleiro das Trevas. Na conclusão da história, o Coringa levou um tiro e caiu de um helicóptero, o que indicou que, muito provavelmente, tenha escapado da morte mais uma vez, algo prontamente corroborado pelo Homem Morcego no último painel, quando filosofou que as coisas entre eles sempre terminavam mal resolvidas. Em 2024, 35 anos após a publicação da história original, a DC Comics resolveu revisitar a trama e responder que eventos seriam desencadeados se Jason tivesse sobrevivido naquele dia fatídico. From The DC Vault Death in the Family: Robin Lives, escrita por J.M. DeMatteis e desenhada por Rick Leonardi, apresentou um desfecho no qual Jason sobreviveu milagrosamente, mas, internamente, pareceu ter ficado além de qualquer reparo.
| A nova versão de uma histórica impactante! |
| Jason sobrevive milagrosamente, mas não sem traumas! |
| Sim, o Coringa está morto! E quem matou foi o Robin! |
Há uma forte carga emocional trabalhada no novo roteiro, no qual Bruce Wayne começou a se questionar se Dick Grayson e Jason Todd não teriam tido uma vida melhor se ele não os tivesse acolhido. O sentimento de culpa fez com que Bruce Wayne contratasse uma terapeuta para Jason, Dana Winters, e revelasse a ela suas identidades secretas! Ela tentou ajudar Jason a lidar tanto com o trauma quanto com sua impulsividade, uma tarefa nada fácil, pois aqui Jason está ainda mais irascível do que no enredo original. Ele reagiu ao tratamento agressivamente, sobretudo quando Batman tentou afastá-lo do papel de Robin, a única coisa que dava sentido à sua vida. Como vingança, Jason fez algo que Batman nunca se dispôs a fazer: matou o Coringa! No entanto, ao invés de entregá-lo às autoridades, Bruce Wayne optou por uma medida mais compassiva. Ele e Dana Winters se casaram e ajudaram Jason a lidar com suas dores. Bruce Wayne abandonou o papel de Batman e Jason tornou-se um psiquiatra renomado. Enquanto Dick Grayson passou a ser o novo Batman, Jason comprovou — uma vez mais! — que "pau que nasce torto nunca se endireita" e se tornou o novo Coringa. Ou seja, em essência, a trama apresentou dois Robins "quebrados" que decidiram seguir caminhos diametralmente opostos, onde um se tornou o Batman e o outro seu maior inimigo.
Robin vivo por Jim Aparo!
Na história original, antes mesmo da conclusão da votação que definiria o destino de Jason Todd, o desenhista Jim Aparo — artista com um traço inconfundível envolvido com Batman por longa data, entre as décadas de 1970 e 1980 — ilustrou dois finais para a saga. Logo abaixo, juntamente com a campanha original para a morte ou a vida do personagem, o desfecho em que, em meio aos escombros da explosão, Batman encontra o corpo de seu parceiro ainda com vida. É interessante fazer um exercício de imaginação e pensar como as tramas do Homem Morcego seriam diferentes a partir deste evento único.
Quem é Jason Todd?
Jason Todd apareceu pela primeira vez em Batman Vol.1 #357 (março de 1983), criado por Gerry Conway e Don Newton. Na edição, Dick Grayson visitou um circo em Nova Jersey, onde foi apresentado a Jason Todd e a seus pais trapezistas. Posteriormente, os Todds foram assassinados pelo Crocodilo (bem diferente de como o vilão é retratado atualmente) e Jason foi acolhido por Bruce Wayne. Como se pode perceber, a primeira versão de Jason Todd era praticamente uma "cópia carbono" de Dick Grayson, com o mesmo background circense. A única diferença eram os cabelos ruivos de Jason, os quais ele passou a tingir de preto quando assumiu a identidade de Robin, em Batman Vol.1 #366 (dezembro de 1983).
Todavia, após a saga Crise nas Infinitas Terras, Jason Todd foi totalmente repaginado e sua origem recontada em Batman Vol.1 #408 (junho de 1987), por Max Allan Collins, Chris Warner e Mike DeCarlo. Após ser baleado pelo Coringa, Dick Grayson foi afastado do papel de Robin — o que posteriormente culminou em sua transformação em Asa Noturna — e o Homem Morcego decidiu continuar a trilhar seu caminho sozinho. Em mais um aniversário da morte e seus pais, ele estava contemplativo no Beco do Crime quando, repentinamente, descobriu que os pneus do Batmóvel tinham sido roubados. O inusitado da situação fez o Cavaleiro das Trevas gargalhar. O autor do roubo era um garoto chamado Jason, cujo pai estava preso, a mãe tinha morrido — na época, ele acreditava que a madrasta era a sua mãe verdadeira — e ele morava só em um prédio abandonado.
Para sobreviver, ele tinha de ser durão e usar as malandragens da rua. Em vez de entregá-lo às autoridades, Batman decidiu levá-lo à Escola para Meninos de Faye Gunn, onde, tão logo o Batman deu as costas, Jason descobriu se tratar de uma quadrilha composta por delinquentes juvenis, na qual a "Mamãe Gunn" era a chefe. Ao final da história, Jason ajudou Batman a acabar com a quadrilha e, impressionado, o herói decidiu levar Jason para a Mansão Wayne e fazer dele o novo Robin. Quando assumiu os roteiros, Jim Starlin "pesou a mão" na caracterização "bad boy" de Jason e fez dele um "enfant terrible" insuportável, excessivamente impetuoso e arrogante, muito pouco agradável aos fãs de quadrinhos, o que levou a Editora à fatídica decisão de eliminá-lo, logicamente em uma "cartada de mestre", pois deixou a decisão totalmente nas mãos dos leitores.
Contudo, todo mundo sabe que a morte não é algo definitivo nos Quadrinhos. Jason foi trazido de volta à vida nas páginas de Batman Vol.1 #635 (fevereiro de 2005), como Capuz Vermelho (Red Hood), ironicamente a antiga identidade do Coringa quando cruzou o caminho do Batman pela primeira vez. A explicação para o regresso de Jason não poderia ser mais estapafúrdia: após alterações na realidade promovidas pelo Superboy Primordial — durante a saga Crise Infinita —, Jason saiu do túmulo e acabou internado em um hospital, onde ficou em coma por um período. Ao despertar, vagou mais um tempo pelas ruas, desmemoriado, até ser encontrado por Talia al´Ghul, que o levou a um dos Poços de Lázaro de seu pai. Jason logo recuperou o vigor e, induzido por Talia, após um período de treinamento, voltou a Gotham para se vingar do homem que o deixou morrer sem punir o culpado: Batman! Desde então, Jason Todd tem oscilado entre ser um completo vilão ou um anti-herói, ora alinhado aos membros da Bat-Família, ora contra eles. Desde o seu retorno, a DC parece não saber exatamente o que fazer com ele, o que é uma lástima, porque não existem personagens verdadeiramente ruins, mas sim autores que não conseguem extrair deles o melhor.
Jason Todd em outras mídias!
Jason Todd não apareceu em muitas outras mídias foras dos quadrinhos, exceto pela série de TV Titans (2018-2023), na qual foi interpretado pelo ator Curran Walters em um total de 26 episódios. No seriado, a morte do Robin e seu retorno como Capuz Vermelho foi adaptada de maneira tosca, mas valeu pelo uniforme, bastante fiel à fonte, e pela atuação de Walters, o qual captou muito bem a essência torturada do personagem. Jason Todd também estrelará a vindoura animação intitulada Dynamic Duo, de Arthur Mintz (diretor) e Matthew Aldrich (roteirista), a qual irá explorar o início da amizade entre ele e Dick Grayson como parceiros com visões de mundo contrastantes. Nas primeiras imagens, Jason Todd aparece ruivo conforme fora concebido originalmente.
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