27 agosto 2025

 Duster: no embalo dos 70!




Duster oferece uma viagem divertida aos anos 1970. Pena que a série da HBO MAX foi cancelada após a exibição de oito episódios e deixou a conclusão em aberto. A trama acompanha Jim Ellis (Josh Holloway), o motorista de fugas de um sindicato criminoso, o qual dirige um Plymouth Duster 1970, e Nina Hayes (Rachel Hilson), a primeira agente negra do FBI, unidos para derrubar o chefe de Jim, Ezra Saxton (David Keith). Em princípio hesitante, Jim aceita atuar como informante para o FBI após Nina apresentar provas de que a morte de seu irmão, Joey, o qual também trabalhava para Saxton, não foi um acidente e pode ter sido encomendada pelo chefe. Uma parceria improvável, Nina tem seus próprios problemas no Bureau, onde precisa lidar com o machismo e o racismo excessivo de seus colegas e provar que é tão competente quanto eles. A única pessoa ao seu lado é o Agente Awan (Asivak Koostachin), também subestimado no FBI por ser indígena (infelizmente, o racismo é algo nojento no comportamento e nos diálogos de alguns personagens, mas se encaixa no contexto daquela época). O caso de Saxton serve como uma luva para que Nina se prove no ambiente hostil em que trabalha, além de servir como um meio de reparação, pois o pai de Nina tinha um passado com o criminoso e foi assassinado a mando dele. A fim de descobrir se Saxton era ou não inocente, mas cada vez menos convencido disso, Jim passa a cooperar, mas também se depara com o seu quinhão de problemas, como o Xerife corrupto Wesson Groomes (Donal Logue), que o flagra com Nina e resolve chantageá-lo para não entregar a informação a Saxton.


Jim Ellis e Nina: uma parceria inusitada!

Ezra Saxton: o poderoso chefão!


Sunglasses: o assassino contratado!

Para resolver a questão, Jim contrata um assassino (um sujeito conhecido como "Sunglasses", ou seja: "óculos escuros", parte da indumentária que o caracteriza!) e aqui vem o inusitado: como pagamento, promete a ele, um fã ardoroso de Elvis Presley, um par de sapatos de camurça azuis usados pelo Rei! O programa equilibra ação e bom humor de forma balanceada, com boas sacadas ao período de efervescência da década de 1970, em referências a figuras daquele período, como Elvis Presley, Richard Nixon e Howard Hughes (Tom Nelis), cuja excentricidade se faz presente em dois episódios, como o portador de um segredo com o poder de abalar os corredores da Casa Branca e que vira moeda de troca entre Saxton e um de seus rivais, Grego Saul (Jack Topalian). No mais, há uma nostalgia gostosa pela música, as roupas extravagantes e o fenômeno da Blaxploitaition, importante movimento cinematográfico no qual os negros resolveram fazer filmes para negros e pérolas como Shaft e Blackula foram produzidas. Como afirmei acima, a série deixou o roteiro em aberto, certamente pensado para uma 2ª temporada, o que, infelizmente, não irá se concretizar. Basta dizer que o plot twist (ou reviravolta) apresentado nos minutos finais do oitavo episódio (intitulado "´66 Reno Split") justificaria ao menos uma nova temporada (mas não, não vou entregar o que é! Assista!!!). Duster é uma criação de J.J. Abrams (Lost e Star Wars: O Despertar da Força) e LaToya Morgan (Shameless e Into the Badlands). 






Curiosidades


Duster traz algumas curiosidades interessantes, a começar pelo carro dirigido pelo personagem de Josh Holloway, cheio de personallidade, o qual tanto reflete a nostalgia de uma época como diz muito a respeito da personalidade de Jim Ellis, um motorista audaz, capaz de manobras radicais e evacuação rápida. Foram utilizados cerca de 250 carros de época nas filmagens - entre os quais uma réplica do Lincoln Aero-Mobile de Howard Hughes, um Jaguar vintage e o Plymouth Belvedere dirigido por Nina Hayes -, dos quais quatro foram Plymouth Duster-340 idênticos. A fim de dar mais autenticidade às cenas de ação, o ator Josh Holloway fez um curso de pilotagem para dublês e participou de algumas sequências ao volante. 


Plymouth Duster-340

Plymouth Belvedere

Lincoln Aero-Mobile


A produção do seriado passou por um longo caminho. Idealizada em 2020, foi encomendada em 2023, mas passou pela Pandemia da Covid-19 e greves de roteiristas e atores. A trilha sonora é um show à parte, com clássicos da época, na voz de  John Lee Hooker, The Holllies, The Sonics, entre outros. Quando assisti a série, fiquei em dúvida em que ano a história se passava, já que Richard Nixon ainda estava no poder e Elvis ainda vivia. Vale lembrar que Nixon renunciou em 1974, após o escândalo de Watergate, e Elvis Presley morreu em 1977, Ao pesquisar, descobri que o enredo se passa em 1972. Infelzimente, após boas avaliações da crítica, Duster foi cancelada ao final da 1ª temporada, por não ter atingido o público esperado.


A Blaxploitaition


Duster faz uma homenagem à Blaxploitaition, cujo significado é a fusão das palavras "black" (negro) e "exploitaition" (exploração), movimento cinematográfico surgido na década de 1970, o qual consistia na produção de filmes feitos por negros e para negros. Constantemente estereotipados, relegados a papéis secundários ou de vilões, era o momento de mostrar o ponto de vista deles, em personagens fortes, cheios de atitude e bom humor. Historicamente, o movimento foi posterior ao movimento pelos direitos civis liderado por Martin Luther King, Malcolm X e Rosa Parks nas décadas de 1950-60, o que fez com que seu impacto fosse ainda mais proeminente. O intuito não era meramente entreter, mas principalmente provocar uma reflexão sobre o racismo, algo doloroso, sentido na pele, o qual, infelizmente, ainda se faz presente em nossa sociedade atual. Do movimento, surgiram verdadeiras pérolas: Shaft (1971), Blackula (1972), Coffy (1973)Cleopatra Jones (1974) e Dolemite (1975). Os filmes eram de baixo orçamento, caracterizados por ação, sexo e violência, e os roteiros abordavam questões como a problemática das drogas, tensões raciais e luta pelos direitos civis. 


Richard Roundtree em ação como o Detetive John Shaft!

Coffy contou com a sensualidade de Pam Grier! 


William Marshall deu vida ao Conde Blackula!


Curiosamente, a Blaxploitaition abrangeu vários gêneros, como western (Boss Nigger - 1975), ficção (Space is the Place - 1974), terror (Blackenstein - 1973), comédia (Uptown Satuday Night - 1974) e até musicais (Sparkle - 1976). Como não poderia deixar de ser, a música foi um elemento importante, onde o rhythm-and-blues foi a marca registrada, nas vozes de artistas como Isaac Hayes, Marvin Gaye, Curtis Mayfield, só para citar alguns. Todavia, mesmo que tenha tornado atores como Pam Grier (Coffy) e Richard Roundtree (Shaft) verdadeiros ícones, o movimento não escapou ileso às polêmicas. A Blaxploitaition foi criticada pela exploração sensacionalista dos temas abordados e pela perpetuação de estereótipos negativos, como os de cafetões e criminosos. Assim mesmo, influenciou cineastas, filmes e estilos cinematofráficos posteriores, como Jackie Brown (1997), Proud Mary (2018) e The Blackening (2022).






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