Mulher-Maravilha 84 anos: parte I
A Mulher-Maravilha é uma personagem de grande relevância dentro da cultura popular. Ela foi criada para ser a epítome da mulher independente e corajosa, algo revolucionário na época em que foi criada, em 1941, quando as mulheres ainda precisavam provar o seu valor e, na ficção, ainda eram retratadas como donzelas indefesas cuja única função em uma história era ser salva pelo mocinho. Personagens como a Mulher-Maravilha mudaram isso e gradativamente outras mulheres fortes começaram a aparecer nas hqs, com maior ou menor relevância, mas já foi um passo representativo para dar vez e voz às mulheres nesta mídia tão fascinante e maravilhosa (desculpem o trocadilho!) que é o mundo das histórias em quadrinhos. No que tange à amazona, vale também lembrar que ela é um dos principais pilares da DC Comics, juntamente com Batman e Super-Homem (com as quais forma a trindade poderosa da Editora). A postagem a seguir, dividida em três partes, é totalmente dedicada à Mulher-Maravilha, que irá completar 84 anos de existência em dezembro! Boa leitura!
O criador e suas inspirações
A Mulher-Maravilha foi criada pelo psicólogo, inventor e escritor William Moulton Marston [1893-1947] sob o pseudônimo Charles Moulton. Ele viveu um relacionamento poligâmico com sua esposa, a advogada Sarah Elizabeth Holloway Marston e sua aluna Olive Byrne, além da amante Marjorie Wilkes Huntley (Deus, como esse homem tinha tempo para pensar em quadrinhos?!?), todas fontes de inspiração na criação da heroína amazona. Em uma entrevista, Marston declarou acreditar no grande potencial das Histórias em Quadrinhos para a educação. A publicação chamou a atenção de Maxwell Charles Gaines [1994-1947], co-fundador da All-American Publications, embrião do que se tornaria a National Periodical Publications (mais tarde rebatizada para DC Comics), considerado por muitos o pai dos quadrinhos americanos. Gaines o contratou como consultor educacional e foi onde começaram a germinar as ideias de Marston para criar seu próprio herói. Como as páginas dos Quadrinhos eram dominadas por figuras masculinas superpoderosas, sua esposa o teria convencido a criar uma super-heroína. Curiosamente, ele foi também o inventor do polígrafo, ou Teste de Pressão Arterial Sistólica, o famoso detector de mentiras, também apresentado no Laço da Verdade usado pela Mulher-Maravilha, o qual compele magicamente qualquer um aprisionado a ele a dizer a verdade.
| William Moulton Marston |
Na gênese da heroína, Marston disse ainda que as mulheres eram mais confiáveis e honestas do que os homens. A Mulher-Maravilha seria então a propaganda psicológica da mulher poderosa, da líder amorosa, a qual, de acordo com as ideias do autor, deveria governar o mundo. Todavia, Marston, além de adepto do poliamor, era um fetichista apreciador do sadomasoquismo, cuja influência é vista em inúmeras histórias em que a personagem aparece amarrada, acorrentada ou amordaçada ao melhor estilo Bondage. Algumas das características da Mulher-Maravilha, como o fato de vir de uma Ilha ocupada somente por mulheres, não passariam despercebidos por um certo charlatão chamado Fredric Wertham [1895-1981], psiquiatra que publicou, em 1954, um livro chamado A Sedução do Inocente (Seduction of the Innocent), onde expôs os heróis de quadrinhos como má influência à juventude americana e a eles atribuiu rótulos nada elogiosos como: fascista (o Super-Homem), homossexual corrompedor de crianças (o Batman) e lésbica (a Mulher-Maravilha), muito embora, no caso dela, Wertham parecia ironicamente alheio ao conteúdo fetichista.
| A Mulher-Maravilha de Marston tinha vários elementos fetichistas! |
A origem!
A primeira aparição da Mulher-Maravilha ocorreu em All Star Comics Vol.1 #8 (dezembro de 1941), com roteiro de William Moulton Marston e arte de Harry George Peter [1880-1958]. Na trama, o piloto Steve Trevor atravessou o Atlântico em busca de um espião nazista, mas seu caça ficou sem combustível e caiu na Ilha Paraíso, onde ele foi resgatado por duas amazonas, Diana e Mala. Diana cuidou dele por dias e gradualmente se apaixonou, mas foi lembrada por sua mãe, a Rainha Hipólita, que homens eram proibidos de pisar na Ilha. Ela decretou que, assim que Trevor estivesse curado, deveria partir. Ao consultar a Esfera Mágica, Hipólita e Diana descobriram a missão secreta de Trevor, quando Von Storm e Fritz, dois agentes do Eixo, sequestraram um avião-robô experimental e tentaram bombardear um campo de pouso do exército.
| A primeira aparição! |
Trevor secretamente assumiu o controle da aeronave e expulsou os nazistas. Ele perseguiu o caça de Fritz quando caiu na Ilha Paraíso. Hipólita ordenou então que uma amazona fosse enviada aos EUA, para ajudar os americanos na luta contra o nazismo. Para escolher a candidata ideal, ela organizou um torneio a fim de estabelecer qual de suas guerreiras atuaria como embaixadora da boa vontade. Hipólita proibiu que Diana participasse do torneio, mas ela o faz secretamente, disfarçada com uma máscara. Ela venceu todas as competições e, ao revelar sua verdadeira identidade, sua mãe ficou contrariada, mas concordou com sua ida aos Estados Unidos. Ela deu a Diana um traje e a batizou de Mulher-Maravilha.
Sem poderes nos anos 1970
Na década de 1960, entre o final da Era de Prata e começo da Era de Bronze, a personagem tinha perdido o fôlego e precisava de uma modernização. Até então, os roteiristas investiam em uma abordagem mais mitológica e a Mulher-Maravilha tinha sido mais sexualizada e fragilizada, pois passou a ser mais uma vítima a ser salva por outros heróis (uma visão machista bastante comum naquele período). Para novos rumos, Dennis O´Neil [1939-2020] assumiu os roteiros e Mike Sekowsky [1923-1989] a arte, a partir de Wonder Woman Vol.1 #178 (outubro de 1968). O escritor promoveu algumas mudanças polêmicas, entre as quais retirar os poderes da heroína, enviar as amazonas para uma dimensão paralela e matar Steve Trevor.
| Diana e sua fase "paz e amor" |
Diana Prince abriu uma loja de roupas e recebeu treinamento de I-Ching, um monge japonês especialista em artes-marciais. Todavia, o run de O´Neil à frente da super-heroína não agradou e foi duramente criticado por Gloria Steinem, jornalista e editora da publicação feminina Ms. Magazine, que chamou a Mulher-Maravilha de O´Neil de "uma James Bond entediante e sem liberdade sexual". posteriormente, o próprio autor veio a público e se desculpou por "arruinar" a personagem. Vale lembrar que O´Neil se tornou um grande roteirista, respeitado por sua longeva contribuição para o universo de Batman, do Arqueiro Verde / Lanterna Verde, dentre inúmeros outros personagens. Sua fase certamente não deixou saudades, mas todos têm o direito de errar, afinal. O "retorno ao básico" ocorreu em 1972, quando a DC resolveu restabelecer o status quo anterior de Diana, com poderes e braceletes e sem mestres orientais.
| O´Neil era um escriba de respeito, mas errou a mão com a personagem! |
O fim e o (re)começo
Em Crise nas Infinitas Terras (1986), muitos personagens pereceram e tiveram suas origens reinicializadas em uma única Terra. A amazona voltou ao barro original do qual havia sido moldada pelos deuses e, assim como Batman e Super-Homem, sofreria grandes mudanças no novo e excitante universo DC. George Pérez [1954-2022] e Greg Potter assumiram a heroína em um novo título, em uma fase celebrada até hoje. Nela, foi revelado que Afrodite tinha criado as Amazonas com as almas de mulheres mortas pelas mãos de homens agressores, e que a Rainha Hipólita tinha sido a primeira vítima. Antes de serem exiladas na Ilha Paraíso, as amazonas viveram na Grécia, de onde foram banidas após um conflito com Herácles (Hércules) e seus exércitos. A então "nova" Mulher-Maravilha recebeu de Gaia, a deusa da Terra, o poder da telepatia e o poder dos braceletes, os quais, ao serem colocados, soltavam rajadas cósmicas capazes de ferir super seres, além de nenhum telepata ser capaz de invadir sua mente graças à tiara.
| A Mulher-Maravilha de Pérez: nada menos que épico! |
Steve Trevor foi reintroduzido como um homem idoso, casado com Etta Candy, velha coadjuvante das aventuras da personagem. Pérez também eliminou Diana Prince, porque sua nova versão simplesmente dispensava uma identidade secreta. Pérez deu às histórias um caráter nada menos que épico, com sua arte sempre belíssima e riquíssima em detalhes. O autor/desenhista aprofundou a narrativa em elementos da mitologia greco-romana. A Mulher-Maravilha passou a ser uma embaixadora de Temyscira no "mundo do patriarcado", onde pregava a paz, mas estava sempre pronta para a guerra. O trabalho de Pérez influenciou profundamente o que seria feito com a Mulher-Maravilha nas décadas seguintes.
| O saudoso George Pérez deixou a sua marca na amazona! |
Contagem para Crise Infinita
Antes dos eventos apresentados em Crise Infinita (2005-2006), Maxwell Lord, outrora aliado da Liga da Justiça, revelou-se um vilão com poderes telepáticos, o qual, inclusive, matou a sangue frio um dos antigos membros da Justiça Internacional, e um de seus melhores amigos, Ted Kord, o Besouro Azul. Lord assumiu o controle da mente do Super-Homem e, no ápice do enredo, a Mulher-Maravilha precisou quebrar o pescoço dele a fim de cessar o controle dele sobre o o Homem de Aço. No entanto, Seu ato foi transmitido mundialmente e voltou a opinião pública contra ela. Em Crise Infinita Especial: Justiceira, O Julgamento da Mulher-Maravilha, Diana passou por um julgamento aberto promovido pelo governo americano e dividiu as opiniões de seus colegas da Liga da Justiça (o Super-Homem a entendeu, mas o Batman a condenou). Diana contratou Kate Spencer como sua advogada. Ironicamente, ela combatia o crime como Justiceira, mas defendia bandidos no tribunal. O especial foi lançado pela Editora Panini em janeiro de 2008.
| Um dos momentos mais trágicos da trajetória da personagem! |
Flashpoint
Ao voltar ao passado e impedir o assassinato de sua mãe, Barry Allen, o Flash, gerou uma nova linha temporal, na qual a Srª. Allen vivia e Barry nunca tinha sofrido o acidente que o transformara no homem mais rápido do mundo. Mais que isso: foi Bruce Wayne quem morreu durante o assalto no Beco do Crime e seu pai, Thomas, tornou-se o Batman, enquanto sua mãe, Martha, enlouquecida pela perda do filho, se transformou na Coringa. O foguete de Kal-El caiu na Rússia, onde ele foi capturado e mantido prisioneiro, longe da radiação do sol amarelo, que iria transformá-lo em um verdadeiro Homem de Aço. Neste mundo novo, Diana iniciou uma romance com Arthur Curry, o Aquaman, ambos a orgulhosa e arrogante realeza de seus povos. Entretanto, quando amor se transformou em ódio, a fúria dos atlantes liderados pelo Aquaman entrou em choque com a das amazonas lideradas por Diana. Em um mundo sem a Liga da Justiça, a guerra travada entre eles teve consequências devastadoras. Esses acontecimentos foram mostrados na minissérie intitulada Flashpoint: Wonder Woman and the Furies (agosto-outubro de 2011).
| Mulher-Maravilha e Aquaman: ex-amantes e inimigos mortais! |
Os Novos 52!
Barry Allen precisou consertar a bagunça gerada por sua tentativa de salvar sua mãe e reparar a linha temporal ao que era antes (ou quase!). Todavia, ao fazer isso, ele retornou a um mundo um pouco diferente do que se lembrava e do qual estava acostumado. Tratou-se do reboot promovido pela DC Comics em 2011, no qual seus principais personagens foram reformulados, enquanto alguns, como Wally West e Donna Troy, foram simplesmente apagados e esquecidos da nova continuidade. A Mulher-Maravilha passou a ser escrita por Brian Azzarello, o qual instituiu que ela era a filha do próprio Zeus com Hipólita, o que a distanciou da criatura moldada no barro e abençoada com a vida pelos deuses gregos, como contava uma de suas origens da Era de Ouro. A passagem de Azzarello pelo título aprofundou ainda mais os elementos mitológicos intrínsecos à personagem. Além disso, nessa fase, ela se envolveu amorosamente com o Super-Homem, algo que muitos leitores sempre desejaram ver (e outros tantos consideravam uma bobagem!). As vendas no período aumentaram significativamente, e não se pode dizer que as histórias fossem ruins.
Renascimento
Os Novos 52! como iniciativa teve curta duração e logo a Editora percebeu a necessidade de trazer muitos dos elementos ignorados e apagados de volta. Foi estabelecido que a realidade dos Novos 52 tinha sido criada pelo Dr. Manhattan (aquele de Watchmen, de Alan Moore), o qual tinha apagado todo o legado dos heróis e a tradição que os unia. Assim, em 2016, surgiu o Renascimento (Rebirth), no qual toda a linha de revistas foi novamente lançada. Greg Rucka voltou a escrever o título da heroína, quando o Super-Homem dos Novos 52 morreu e Diana voltou a se relacionar com Steve Trevor. A Mulher Leopardo (Barbara Minerva), antiga inimiga da amazona, recebeu um bom desenvolvimento, focado na perda de sua humanidade e em sua fome por carne humana. Questões como orientação sexual passaram a ser abordadas nessa fase. A volta de Steve Trevor e a busca de Diana pela Ilha de Temyscira passaram a ser elementos nostálgicos. As tramas alternaram passado e presente. com uma versão mais jovem e inocente de Diana, que saía de Temyscira, e uma Diana madura, a qual questionava sua própria identidade e não sabia como voltar para casa.
Linha Absolute
A mais nova iniciativa da DC Comics chama-se Absolute, na qual Darkseid criou um novo universo totalmente impregnado com sua energia negativa, no qual ele poderia exercer maior influência. Neste (nem tão!) "admirável mundo novo", novas versões dos principais personagens emergiram. A Mulher-Maravilha dessa nova realidade não foi criada em Temiscyra, mas sim levada ao inferno pelo deus Apolo e entregue à feiticeira Circe, a quem foi dada a missão de criá-la. Assim, além de ter o talento nato de uma guerreira amazona, ela também aprendeu magia negra e tornou-se também uma bruxa. O enredo das primeiras histórias intercalou suas batalhas em Gateway City e sua temporada no inferno com sua mãe adotiva e seu primeiro encontro com Steve Trevor, o qual foi resgatado por Diana nas praias da Ilha Selvagem (e não mais na "Ilha Paraíso"). Diana invocou o poder de Circe para aumentar o tamanho de sua espada a proporções gigantescas, o que lhe permitiu cortar ao meio a criatura Tetracide. Porém, a criatura se regenerou, o que obrigou Diana a usar o Laço da Transformação de Circe (não mais o "Laço da Verdade") em si mesma, o que fez com que se transformasse na mitológica Medusa, com cujo poder ela transformou a abominável criatura em pedra. Ao retornar à sua forma original com o auxílio de Trevor, ela o esmagou com um soco. Ela foi então arrastada para o subsolo, aparentemente por um olímpico. Além da espada imensa, Diana tem o corpo todo tatuado e cavalga uma pégaso esqueleto bizarro, mas em perfeita consonância com sua nova personalidade guerreira/bruxa. Escrita por Kelly Thompson e desenhada por Hayden Sherman, a Mulher-Maravilha Absolute promete boas histórias.
| Absolute traz uma Mulher-Maravilha bruxa e guerreira! |
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