31 maio 2026

 Nicolas Cage: o super-herói!




Nicolas Cage é um ator oscarizado — já recebeu um Oscar de Melhor Ator por sua atuação em Despedida em Las Vegas (1995) — e protagonizou filmes memoráveis, como A Rocha (1996), A Outra Face (1997), Cidade dos Anjos (1998), Oito Milimetros (1999), A Lenda do Tesouro Perdido (2004), entre outos. Lamentavelmente, sua carreira parece andar ladeira abaixo nas duas últimas décadas, após sucessivos trabalhos ruins (parece até que ele escolhe a dedo os piores projetos para se meter!). Assim mesmo, Cage tem a sua base de fãs. Sobrinho do aclamado diretor Francis Ford Coppola (de Apocalypse Now e O Poderoso Chefão), o ator adotou o sobrenome "Cage" para seguir seu próprio caminho, longe da sombra do tio famoso. Curiosamente, "Cage" foi inspirado por Luke Cage, herói da Marvel Comics — cujo codinome em inglês é "Power Man", ou "Poderoso" —, para servir como sua nova persona em Hollywood. Assim, a resiliência impressionante do personagem passou a espelhar a sua determinação em se tornar um astro de cinema por mérito próprio. Um ávido colecionador de histórias em quadrinhos, Nicolas Cage já teve em sua coleção a Action Comics Vol.1 #1 (abril de 1938), revista que marcou a estreia do Super-Homem e que vale milhões. Seu desejo sempre foi viver o Homem de Aço nas telas, algo que esteve a um passo de conseguir, não fosse o cancelamento do projeto. Anos depois ele viveu o Motoqueiro Fantasma em dois filmes e, mais recentemente, ele é o Homem-Aranha Noir em uma série da Prime VídeoO texto a seguir vai explorar justamente a faceta de Cage como grande apreciador de Histórias em Quadrinhos e de que forma isso impactou na sua carreia.


Para o alto e avante!


Em 1998, Nicolas Cage foi escalado para viver o Super-Homem em Superman Lives, com direção de Tim Burton, cuja visão excessivamente dark e excêntrica fizeram o sucesso do Batman de 1989, mesmo com a escalação do protagonista, Michael Keaton, um tanto subestimado (e odiado!) no começo. Com Cage a mesma história ameaçava se repetir, pois assim como Keaton não tinha nada a ver com Bruce Wayne/Batman, o mesmo poderia ser dito a respeito de Cage e de Clark Kent/Super-Homem. Assim mesmo, o anúncio do projeto reacendeu as expectativas de fãs que não viam um filme do herói desde o pavoroso Superman IV: Em Busca da Paz (1987), o último estrelado por Christopher Reeve e que colocou a franquia em um hiato criativo indeterminado. O roteiro inicial para um novo filme, conhecido como Superman Reborn, foi fortemente inspirado na saga A Morte do Super-Homem, de 1992. Seguiram-se vários tratamentos para o roteiro, nos quais o vilão Apocalipse era a única constante. Kevin Smith escreveu um dos roteiros e procurou ser fiel à fonte, mas o produtor Jon Peters ajudou a afundar o projeto com ideias malucas, como, por exemplo, a "exigência" de que o Super-Homem não voasse (!!!), não usasse um traje (!!!) e enfrentasse uma aranha gigante no final (!!!). Peters também queria que a Fortaleza da Solidão fosse guardada por ursos polares, os quais se envolveriam em uma luta contra os vilões em algum momento. Quando Tim Burton assumiu a direção, o roteiro de Smith foi (felizmente!) descartado — exceto pelo título — e ele começou a dar forma ao longa-metragem à sua própria maneira.






Burton queria enfatizar o aspecto mais alienígena do personagem e seu Super-Homem seria muito diferente do que fora feito anteriormente. Na época, Cage afirmou que "ninguém que olhasse para o seu Clark Kent jamais pensaria que ele era o Super-Homem". Além do Apocalipse, Lex Luthor e Brainiac seriam os vilões do filme, os quais seriam fundidos em um único ser ciborgue conhecido como Luthiac (!!!). o Super-Homem de Cage seria morto após lutar contra Apocalipse, mas seria ressuscitado por "K", um kryptoniano artificial que conteria a essência de Jor-El (pai do herói!), o qual se tornaria um traje de cura preto (bastante semelhante ao visto na saga dos Quadrinhos).... Pelo que se pode ler, Hollywood mais uma vez jogou conceitos diferentes no liquidificador — Jor-El + Erradicador (nos quadrinhos um artefato responsável por preservar a cultura kryptoniana) + o traje regenerativo visto na minissérie O Retorno do Super-Homem (1993) — sem problema ou respeito algum. O filme foi cancelado após uma série de atrasos e cortes, além da interferência constante do produtor idiota e da saída repentina de Tim Burton, que já não queria mais estar envolvido com um projeto que naufragava a olhos vistos. Ironicamente, o Super-Homem de Nicolas Cage apareceu na tela grande,, ainda que brevemente, anos depois, recriado digitalmente em uma das Terras do multiverso no famigerado The Flash (2023), dirigido por Andy Muschietti e em luta contra uma aranha gigantesca, tal qual desejava Jon Peters.



 

O Espírito da Vingança!


Cage realizou o desejo de viver um super-herói nas telas em Motoqueiro Fantasma (2007), dirigido por  Mark Steven Johnson, no qual deu vida a Johnny Blaze, um motociclista que ganha a vida em exibições com a sua moto, o qual faz um pacto com o demônio Mephistopholes (vivido por Peter Fonda) para  salvar a vida de seu pai, mas é enganado e adquire poderes sobrenaturais. Além de Mephisto, Blaze tem que enfrentar o demônio Blackheart (Wes Bentley). Conforme afirmado mais acima, Cage é fã de quadrinhos, tanto que tem uma tatuagem do Motoqueiro Fantasma em seu braço direito, a qual, na época, precisou ser tapada nas cenas em que ele apareceria sem camisa. O orçamento original, de US$ 65 milhões, inflou para US$ 110, porque Nicolas Cage exigiu o máximo de fidelidade na retratação do personagem. E é justo dizer que isso foi alcançado, pois o visual de Johnny Blaze transformado, com a caveira envolta em chamas, construída a partir de um modelo em 3D do crânio de Cage, é realmente impressionante.  Se o filme teve um sucesso moderado, o mesmo não pode ser dito da sequência, Motoqueiro Fantasma: Espírito de Vingança (2011), com direção de Mark Neveldine e Brian Taylor. Desta vez, algumas escolhas excêntricas foram permitidas, como a cena em que o Motoqueiro Fantasma urina fogo (!!!), uma ideia do próprio Nicolas Cage, como uma forma de destacar o bizarro do personagem, que não estava no roteiro original. 




Os diretores a acharam absurda, mas permitiram a inclusão da cena como forma de alívio cômico. O visual do Motoqueiro Fantasma foi redesenhado para a continuação, com uma textura mais escura e carbonizada. O longa teve cenários exóticos, filmado quase inteiramente na Europa, na Turquia e na Romênia. Para atuar como Johnny Blaze, Cage demonstrou grande dedicação: pintava o rosto de preto, usava lentes de contato assustadoras e andava pelo set a emitir grunhidos selvagens, o que assustou membros da equipe e da produção. A franquia pertencia originalmente à Sony Pictures e, em 2013, como o Estúdio não desenvolveu novos longas para aproveitar o sucesso de bilheteria (moderado, vale lembrar!) do segundo filme, os direitos cinematográficos do Motoqueiro Fantasma retornaram à Marvel Studios. Além disso, Nicolas Cage afirmou que não tinha interesse em retornar ao papel em mais uma sequência, porque já havia dito tudo o que queria dizer com o anti-herói. O Motoqueiro Fantasma é uma criação de Roy Thomas, Gary Friedrich e Mike Ploog para Marvel Spotlight Vol.1 #5 (maio de 1972)





Amigão da Vizinhança!


Nicolas Cage está na mais nova série da Prime Video, Spider-Noir, da Prime Video, onde dá vida a um Homem-Aranha da Grande Depressão da década de 1930. Veterano da Primeira Guerra Mundial, Ben Reilly (Cage) é um investigador particular que há cinco anos deixou para trás sua vida como aventureiro mascarado após a morte de sua amada. Ele retorna a agir como o Aranha quando uma série de vilões dotados de poderes começam a surgir em Nova Iorque, liderados pelo gângster Cabelo de Prata (Brendan Gleeson). Entre eles, Flint Marko (Jack Huston), Lonnie Lincoln (Abraham Popoola) e Dirk Leyden (Andrew Lewis Caldwell) — respectivamernte, para quem é leitor de quadrinhos, versões novas dos vilões Homem Areia, Lápide e Electro —, todos com um passado em comum com o herói, nos dias da Primeira Guerra, quando adquiriram poderes após terem sido submetidos a bizarras experiências. O próprio Reilly foi mordido por uma das cobaias, que tinha um aspecto mais aracnídeo do que humano. Reilly tem como aliados Robbie Robertson (Lamorne Morris), repóster do Jornal Clarim Diário, e sua secretária, Janet Ruiz (Karen Rodriguez). Reilly também tem como interesse amoroso a sedutora — e não confiável! — Cat Hardy (Li Jun Li), que nas hq´s é a Gata Negra (Black Cat). 




Concebida por Oren Uziel (Mortal Kombat e Cidade Perdida), a primeira temporada conta com oito episódios e chamou a atenção por trazer Ben Reilly, e não Peter Parker, como personagem-título. Vale lembrar que a escolha reflete uma realidade diferente da qual o leitor/espectador fã do Homem-Aranha está acostumado, na qual a pegada é mais hardcore pelo simples fato de que Reilly presenciou os horrores da guerra e vive em um período de escassez econômica, o que, sem dúvida, forja homens duros. Outro aspecto a ser ressaltado é que, na continuidade principal da Marvel — a chamada Terra-616 —, Ben Reilly passou a ser a identidade adotada pelo clone de Peter Parker, cuja primeira aparição se deu na primeira saga do Clone (de 1975). Já o Homem-Aranha Noir dos quadrinhos, surgiu na revista Spider-Man Noir #1 (fevereiro de 2009), criado (adaptado) por David Hine, Fabrice Sapolsky, Carmine Di Giandomenico e Marko Djudjevic. Ainda é cedo para saber se o novo seriado será renovado para uma segunda temporada. A proposta é interessante e tem o potencial para boas tramas (como a inclusão do Sexteto Sinistro, já que os vilões têm se unido ao longo da primeira temporada). Para Cage, o personagem não é novidade, jé que emprestou sua voz ao personagem na animação Homem-Aranha: No Aranhaverso, de 2018.





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