04 novembro 2025

 Lex Luthor: Vilania eterna — Parte I




Lex Luthor, o eterno inimigo do Super-Homem é um dos maiores vilões da DC Comics e uma das mentes mais brilhantes do mundo. Ao longo de décadas de existência, o personagem já passou por incontáveis revisões. De cientista louco a empresário arrojado, já foi presidente dos EUA e até aliado da Liga da Justiça, mas um fator permaneceu imutável ao longo de tanto tempo: seu ódio pelo Super-Homem! Ele nunca aceitou a idolatria do público pelo Homem de Aço, a qual ele sempre julgou ser sua por direito. A inveja de Luthor e sua arrogância são os seus pontos fracos em face ao assim denominado "Homem do Amanhã", o que o torna o mais humano inimigo do herói (e talvez o mais interessante). Luthor já saltou dos quadrinhos para outras mídias, sempre com um plano para liquidar seu eterno desafeto! A presente postagem será dividida em três partes, cada qual sobre a atuação do vilão em uma mídia específica. Como não poderia deixar de ser, no texto a seguir, tratarei sobre quadrinhos, da primeira aparição às mais recentes. Vamos lá!


A primeira aparição!



Lex Luthor estreou nas páginas da Action Comics Vol.1 #23 (abril de 1940), na segunda parte da história intitulada "Europe at War" ("Europa em Guerra"), criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, como um vilão de cabelos ruivos com planos de dominação global. Para isso, fomentou a discórdia entre Galonia e Toran, duas nações fictícias. Seu objetivo: levá-las à Guerra, em um plano maior de provocar a guerra também entre outros países e dominá-los quando estivessem enfraquecidos pelo conflito. Luthor afirmou ter o desejo de se tornar o "mestre supremo do mundo", uma motivação típica dos vilões da Era de Ouro dos quadrinhos, um tanto rasa e unidimensional, mas que naqueles tempos funcionava muito bem. Curiosamente, em sua primeir aparição, Luthor ainda não apareceu totalmente calvo como ficaria caracterizado posteriormente. 


Luthor careca!



Luthor foi mostrado com cabelos ruivos em sua primeira aparição e em histórias subsequentes, mas menos de um ano depois apareceu totalmente calvo em uma tira de jornal, em um erro artístico atribuído ao desenhista Leo Nowak. Especula-se que o artista provavelmente tenha confundido Luthor com o Ultra-Humanoide, o qual estreara em Action Comics Vol.1 #13 (julho de 1939) e era careca. Já em Superman Vol.1 #10 (maio de 1941), Nowak desenhou o personagem mais gordo e a perda de cabelos abrupta foi referenciada várias vezes ao longo da história. A partir de então, a careca passou a ser a marca registrada de Lex Luthor.


A origem da rivalidade!




Em Adventure Comics Vol.1 Vol.1 #271 (abril de 1960), foi apresentada a origem da rivalidade entre Lex Luthor e Super-Homem. Na história intitulada "How Luthor Met Superboy!" ("Como Luthor Conheceu Superboy!"), escrita por Jerry Siegel e desenhada por Al Plastino, Luthor era um cientista adolescente de cabelos castanhos que tinha no Superboy o seu maior ídolo, tanto que resolveu criar um antídoto para a kryptonita. Como forma de expressar sua gratidão, o jovem herói criou um laboratório para Luthor, onde ele criou uma forma de vida protoplasmática e a usou em seu antídoto. No entanto, Luthor acidentalmente provocou um  incêndio e, quando o Menino de Aço o salvou, provocou a perda de seus cabelos! Seu super sopro destruiu uma garrafa de ácido que continha uma forma de vida protoplasmática, a qual seria utilizada no antídoto, o que produziu um gás que fez todo o cabelo de Luthor cair. Irado, Luthor passou a considerá-lo seu inimigo desde então e jurou, um dia, destruí-lo. 


Planeta Lexor



Em Superman Vol.1 #164 (outubro de 1963) Luthor desafiou o Super-Homem para uma luta justa. A solução foi rumarem, em uma nave construída pelo herói, a um planeta que orbitava um sol vermelho, sob cujos efeitos o Homem de Aço se tornaria um homem comum. Assim mesmo, Luthor foi vencido e tentou fugir, mas se deparou com a civilização do planeta, a qual passou a adorá-lo como um salvador após ele ajudá-los a reconstruir sua tecnologia perdida. A gratidão fez com que o planeta passasse a se chamar Lexor e até mesmo uma estátua gigantesca foi erigida em sua homenagem. A partir de então, Lex Luthor começou a usar o planeta como base para várias ofensivas contra o Super-Homem, a quem os lexorianos passaram a considerar seu inimigo. Luthor casou com Ardora, uma nativa de Lexor, e com ela teve um filho, Lex Luthor Jr. Eventualmente, Luthor descobriu que Lexor estava ameaçado por uma reação em cadeia no núcleo do planeta.



Ele construiu um dispositivo chamado Neutrarod, o qual se conectava ao núcleo do planeta e retardava o processo. Quando encontrou uma armadura robótica verde e roxa (a tradicional armadura, utilizada desde então até Crise nas Infinitas Terras) em um laboratório lexoriano escondido, Luthor a usou para mais um de seus planos contra seu maior inimigo. Todavia, quando tentou atingir o Super-Homem, a energia ricocheteou e atingiu o Neutrarod. A reação em cadeia foi imediatamente iniciada e devastou Lexor — nas páginas de Action Comics Vol.1 #544 (junho de 1983) —, em uma tragédia que vitimou todos os habitantes do planeta, inclusive sua esposa e filho. Incapaz de sentir remorso, Luthor culpou o Super-Homem mais uma vez e novamente jurou se vingar. 


Um novo Luthor!



Após Crise nas Infinitas Terras, os heróis e vilões da DC foram revitalizados em novas origens. Enquanto Frank Miller recontou os primeiros dias do Batman e George Pérez os da Mulher-Maravilha, coube a John Byrne a tarefa de modernizar o Super-Homem. Nesta nova encarnação, seu maior inimigo foi retratado como um homem de meia-idade, acima do peso e de cabelos ruivos ralos (ainda não totalmente calvo!), bem diferente do Lex Luthor tradicional. Ele também deixou de ser um cientista megalomaníaco, para se tornar um megaempresário inescrupuloso megalomaníaco (quando se fala em Luthor, a megalomania é parte indissociável do personagem, não importa a época ou a versão!). O primeiro encontro desse Lex Luthor com o Super-Homem — publicado em The Man of Steel Vol.1 #4 (novembro de 1986) — apresentou o sugestivo título de "Inimigo Meu" ("Enemy Mine"), e ilustrou muito bem o início da rivalidade entre os dois. 


Na trama, Luthor deu uma festa suntuosa em seu luxuoso transatlântico. Entre inúmeros convidados, os repórteres do Planeta Diário Clark Kent e Lois Lane, esta incomodada com as investidas de Luthor. De repente, terroristas atacaram a nau e Clark Kent foi jogado ao mar, situação conveniente para uma rápida troca de roupas. Como Super-Homem, ele levantou o navio, o que deu a Lois a oportunidade de assumir o controle e derrotar os bandidos. Luthor então revelou ter permitido que os terroristas subissem a bordo, só para ver o Super-Homem em ação e incluí-lo em sua folha de pagamento. O herói não só recusou, como foi designado pelo prefeito de Metropolis a prendê-lo. Daquele dia em diante, Luthor passou a odiá-lo e não poupou esforços para destruí-lo. Para isso, fez de John Corben, vítima de um acidente, seu instrumento de vingança ao substituir seu coração por um pedaço de kryptonita; também criou um clone do herói, o qual não deu muito certo, muito embora tenha dado trabalho ao Homem de Aço. Em seu ódio sem limites, mandou manufaturar um anel de kryptonita, o qual posteriormente causou a perda da sua mão direita devido à radiação do meteorito, posteriormente tornado um câncer terminal. Sem dúvida, essa versão do vilão não estava para brincadeira.   


A biografia não autorizada!




A ascensão de Lex Luthor como um empresário bem sucedido e implacável foi explicada no especial Lex Luthor: The Unauthorized Biography (julho de 1989), de James D. Hudnall (roteiro) e Eduardo Barreto (arte). No enredo, Clark Kent foi interrogado como suspeito do assassinato do jornalista de tabloide Peter Sands, contratado para escrever uma biografia não autorizada de Lex Luthor. Mesmo sob ameaças cada vez mais veementes para que desista, Sands buscou saber mais sobre seu biografado e, para isso, entrevistou pessoas do seu passado, como uma ex-namorada, ex-empregados e uma ex-professora. Sands descobriu que Luthor tivera uma infância pobre em um bairro miserável de Metropolis, e que sofrera maus tratos na infância. Com apenas 13 anos, Luthor havia forjado a assinatura do pai em uma apólice de seguro de vida e, pouco tempo depois, seus pais morreram em um acidente de carro, o qual Sands concluiu ter se tratado de um ato de sabotagem orquestrado pelo próprio filho. 




Com o dinheiro recebido, Lex Luthor investiu em sua própria companhia, tornada uma potência ao longo dos anos graças à sua astúcia e a ferocidade com que removia concorrentes e inimigos do caminho. Quanto mais se aprofundava no passado de Lex Luthor, mais sujeira e podridão Sands descobria, o que fez com que clamasse pela ajuda do Super-Homem, mas infelizmente tarde demais para ele. Trata-se de uma história que vale muito a pena ser lida e guardada na estante, porque pela primeira vez o personagem foi tratado com a devida profundidade desde que John Byrne o remodelou de um cientista louco genérico para um empresário inescrupuloso com camadas de complexidade. A trama investigativa também foi muito bem conduzida e prende a atenção do leitor do início ao fim. Curiosamente, a capa da edição foi inspirada no livro de Donald Trump, intitulado Trump: The Art of the Deal. A HQ foi publicada duas vezes no Brasil, uma pela Editora Abril (1991) e outra pela Mythos Editora (2002).


Um novo começo!



Conforme dito mais acima, durante a fase de John Byrne, Luthor desenvolveu câncer devido à exposição prolongada à kryptonita. Mas ele tinha planos para enganar a morte certa e iminente! Ele forjou a própria morte em um acidente de avião e foi para um laboratório secreto na Austrália, onde seu cérebro foi transplantado para um clone seu, mais jovem e em pleno vigor. Com um novo corpo e uma nova aparência (com longos cabelos ruivos e barba), ele retornou à Metropolis e fingiu ser seu próprio filho ilegítimo. Verdadeiro lobo em pele de cordeiro, ele assumiu o controle da LexCorp, da herança de seu "pai", e fingiu ajudar, mas secretamente continuava a tramar contra o Super-Homem. Para atingir seus propósitos, ele manipulou a Supergirl (na verdade uma forma de vida protoplasmática criada por um Lex Luthor de uma terra alternativa), mas repentinamente Luthor se viu novamente próximo da morte iminente quando começou a padecer de uma doença que atingia somente clones.



Ele deteriorava-se a olhos vistos e passou por um processo de envelhecimento precoce. Neste período, Lois Lane reuniu provas de que Luthor havia matado uma de suas funcionárias e incriminado outra pessoa. Durante a investigação, a repórter também descobriu a verdade sobre a morte forjada e sua nova identidade. Luthor tentou incendiar o Planeta Diário, mas o Super-Homem interveio e salvou Lois, que o expôs publicamente. Cada vez mais perto do fim, Luthor ativou um plano para a destruição de Metropolis, o qual causou incontáveis mortes e provocou a destruição da cidade. Luthor permaneceu preso a seu corpo doente e envelhecido até fazer um pacto com o demônio Neron, o qual restaurou sua saúde em troca (é claro!) de sua alma. Tempos depois, ao retornar à Metropolis, Luthor foi preso, mas espertamente alegou que havia sido sequestrado e substituído por um clone, o qual seria o verdadeiro culpado. Assim, ele foi absolvido e passou a investir em sua imagem de "bom moço" ao promover o desenvolvimento tecnológico de Metropolis por meio da tecnologia alienígena em seu poder.


Lex Luthor Presidente




Luthor ajudou a Liga da Justiça a recarregar o sol durante a saga Noite Final (Final Night), de 1996, e na reconstrução de Gotham City arrasada por um terremoto, durante o arco Terra de Ninguém (No Man´s Land), de 1999. Sob uma fachada de respeitabilidade renovada, Luthor aproveitou o momento para lançar sua candidatura à presidência dos EUA, em uma campanha progressista na qual prometeu avanço tecnológico igual ao de Metropolis para o restante do país. Sua vitória, em 2000, foi garantida pela impopularidade do governo anterior, causada por sua incapacidade em reconstruir Gotham. Na verdade, Luthor havia atrapalhado propositalmente a reconstrução, fato posteriormente descoberto por Bruce Wayne, que cancelou todos os contratos militares das empresas Wayne com o governo. Como vingança, Luthor encomendou o assassinato de Vesper Fairchild, namorada de Wayne, e o incriminou (o que desencadeou a saga Bruce Wayne Assassino). Quando um invasor alienígena atacou a Terra, a popularidade de Lex Luthor como presidente disparou ao coordenar uma ação conjunta entre o exército e os super-heróis do planeta. Luthor tinha conhecimento da iminência da invasão, mas omitiu a informação até poder usá-la em seu benefício. Em 2002, Luthor descobriu a identidade do Homem de Aço, quando um cientista entregou-lhe documentos secretos do governo que registravam a queda da nave que trouxe o herói à Terra. Luthor matou o cientista e decidiu manter o segredo para si, mesmo após Clark Kent e Lois Lane publicarem provas de que Luthor tinha conhecimento prévio da invasão e não pôs em andamento nenhum plano de defesa. 



Todavia, Luthor escapou impune dessas acusações com a ajuda do telepata Manchester Black, o qual impediu que até mesmo o laço da Verdade da Mulher-Maravilha o expusesse. A reportagem de Clark Kent foi considerada uma fraude, o que resultou na sua demissão. Mais tarde, Manchester Black tentou matar o Super-Homem e seus familiares. Quando estava prestes a matar Lois Lane, foi impedido por Luthor (que sempre teve uma "quedinha" por ela). Antes de morrer, como retaliação, Manchester Black apagou da mente de Luthor o conhecimento da identidade secreta do Super-Homem. Quando tentou responsabilizar o Homemd e Aço pela aproximação de um meteoro de Kryptonita em direção à Terra, Luthor levantou suspeitas para si. Com a popularidade em baixa, ele se lançou em uma tentativa desesperada para destruir o Super-Homem e combinou Veneno — o mesmo composto usado por Bane! —, kryptonita sintética e um exotraje de Apokolips. Afetado pela insanidade causada pelo Veneno, Luthor não hesitou em lutar em público, o que deixou evidente para olhos públicos a sua loucura. Após a batalha, ele foi forçado a renunciar à presidência para seu vice, Pete Ross. Além disso, perdeu o controle da LexCorp, pois durante a sua ausência a executiva Talia al Ghul, sua substituta como presidente da companhia, tinha vendido a LexCorp para as empresas Wayne.    


Legado das Estrelas X Origem Secreta!


Em 2004 foi lançada a minissérie de 12 partes Super-Homem: Legado das Estrelas (Superman: Birthright), de Mark Waid e Leinil Francis Yu, na qual as origens do Super-Homem e de seu maior inimigo foram — sabe-se lá por que diabos! — mexidas mais uma vez. Waid era um crítico ferrenho às mudanças implementadas por John Byrne no pós-Crise nas Infinitas Terras, e pretendia, com a sua versão, anular a de Byrne. A obra foi fortemente influenciada pelo seriado Smallville (2001-2011), onde foi ressaltada a amizade de Luthor com Clark quando os dois eram jovensEm 2009, foi a vez da minissérie Superman: Origem Secreta (Superman: Secret Origin), de Geoff Johns e Gary Frank, mostrar uma nova origem para Luthor e Super-Homem, cujos passados foram alterados na saga Crise Final. A série reuniu elementos dos filmes estrelados por Christopher Reeve - e o traço de Gary Frank emulou justamente esta encarnação do herói! -, da série Smallville e também de Legado das Estrelas. Com essa salada, a versão de John Byrne deixou de valer, ao menos até surgir outra saga ou reboot que redefina tudo mais uma vez!




Vilania eterna!




Durante a fase dos Novos 52!, foi publicado, em 2013, o crossover intitulado Vilania Eterna (Forever Evil), o qual deu título a esta postagem. Com roteiros de Geoff Johns e arte de David Finch, teve como foco os vilões da Editora no universo rebootado após a saga Ponto de Ignição (Flashpoint). Na trama, foi revelado que o Sindicato do Crime da Terra-3 eram os verdadeiros vilões do evento anterior, A Guerra da Trindade, e não a Sociedade Secreta de Supervilões, cujo líder era Alfred Pennyworth da Terra-3, também conhecido como Renegado (Outsider). Ele abriu a Caixa de Pandora com o objetivo de estabelecer um portal entre a Terra-3 e a Terra-0, para que o Sindicato do Crime — formado por Ultraman, Super-Mulher, Coruja, Johnny Quick, Anel Energético e Morte Nuclear — dominasse a Terra-0. A equipe do mal tambéem contava com Atômica, uma agente da Terra-3 infiltrada na Liga da Justiça e Rede (Grid), um vírus de computador senciente formado pela separação das próteses do Cyborg do corpo humano de Victor Stone. O Lex Luthor da Terra-3 era um autodenominado herói chamado Mazahs, o equivalente ao Shazam (ou Capitão Marvel para os leitores da vellha guarda), mas secretamente era tão corrupto quanto os demais membros do Sindicato do Crime. Ele teve um caso com a Super-Mulher e era o pai do filho dela. No entanto, mesmo sendo um Luthor, o seu análogo da Terra principal se revelou muito mais brilhante, tanto que o matou de uma forma memorável. Ao perceber que podia invocar os poderes da Mazahs, Luthor gritou a palavra a fim de transformar sua contraparte novamente em um humano normal. Lex tapou-lhe a boca, para que não invocasse o poder novamente, e o esfaqueou brutalmente.


PARTE 2 / PARTE 3

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